Sim, Jesus foi notável pregador e admirável pedagogo. Mas ninguém pode negar sua queda pelo teatro. Aqui e ali, ao entrar em cena, Jesus de Nazaré assume os mais variados disfarces. Junto ao sepulcro, Maria o confunde com o jardineiro (Jo 20, 15). Na estrada de Emaús, Cléofas e o companheiro anônimo fazem belo pedaço de caminho sem reconhecer o estranho a seu lado (Lc 24, 13ss). Na praia, nem mesmo os apóstolos conseguem identificar o vulto que lhes sugere pescar à direita, até que João grite: “É o Senhor!” (Jo 21, 7)
Lev Gillet pergunta: “Por que tantas metamorfoses?” E depois de lembrar que o Ressuscitado tem agora uma presença universal, livre das limitações físicas de tempo e espaço, fala-nos dos novos disfarces do Senhor.
“Quando o Cristo histórico subir aos céus, é sob os traços dos homens encontrados por nós que sua presença assumirá um semblante terrestre. Bem antes de sua morte, ele já havia declarado que teve fome e sede, que foi nu e enfermo, estrangeiro e prisioneiro, naqueles que nós alimentamos e saciamos, vestimos e cuidamos, acolhemos e visitamos. ‘Tudo o que fizestes a um desses mínimos de meus irmãos, vós o fizestes a mim mesmo!’”
Prossegue Lev Gillet: “Deus e suas criaturas jamais serão idênticos. Nós não somos o Cristo por natureza, mas o somos por participação e por graça. Nós somos seus membros. É sob esta forma que Jesus se torna visível e tangível para nós. A esta geração que se proclama realista e não quer adorar um fantasma, Jesus diz: ‘Vede minhas mãos e meus pés!’ (Lc 24, 39) E não existem hoje, sobre a terra, outras mãos e outros pés a não ser os dos homens. Se tu não podes subir diretamente até Jesus pela oração, sai de tua casa e o encontrarás na rua, sob a figura do homem e da mulher que passam”.
Seria esta a explicação plausível para aquela frase misteriosa de Jesus Cristo: “Pobres sempre os tereis convosco”? (Jo 12, 8) Será que a presença dessa multidão anônima de famintos e enfermos, de estrangeiros e presidiários, é nossa extrema oportunidade de fazer um encontro pessoal com o futuro Juiz?
E voltamos a Lev Gillet: “A cada passo, nós podemos transfigurar os homens, se resgatamos neles a Sagrada Face tantas vezes desfigurada. S. João Crisóstomo nos declara que o altar vivo e humano estendido em cada rua, em cada encruzilhada, é mais sagrado que o altar de pedra, pois sobre o segundo Cristo é oferecido, mas o primeiro é o próprio Cristo”.
Orai sem cessar: “Não me escondas teu rosto, Senhor!” (Sl 27, 9)
Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança

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