segunda-feira, 20 de novembro de 2017

PALAVRA DE VIDA

 Filho de Davi! (Lc 18,35-43)
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            O grito do cego não é apenas o profundo gemido de um homem deficiente e marginalizado em busca de compaixão. Na tradição judaica, o “Filho de Davi” era exatamente o Ungido de Deus [= Messias] que aparece na promessa do Senhor que o profeta Natã levou a Davi (cf. 2Sm 7,12ss). Conscientemente, ou não, o filho de Timeu proclamava a realeza de Jesus de Nazaré.

            Jean Valette comenta: “Tal como ele é, nossa passagem aparece como um prelúdio à entrada solene de Jesus na Cidade Santa. A multidão aqui citada era formada, seguramente, por aqueles peregrinos que se haviam reunido a Jesus e aos seus. “Jesus, Filho de Davi, é a primeira aclamação messiânica, na véspera da entrada em Jerusalém.
            As turbas não dirão outra coisa quando Jesus passar montado em seu burrico. Assim, a ligação com o dia dos Ramos é difícil de negar. Pode-se mesmo perguntar se o milagre que Jesus vai realizar, ao ser recontado em Jerusalém pelos peregrinos, não veio a desempenhar um papel nas aclamações do povo, na medida em que a cura dos cegos era o sinal messiânico por excelência”.
            Claro que o cego é movido por sua extrema necessidade pessoal. Provavelmente não media o alcance de seu grito, que salta acima e além de sua miséria e de sua esperança interessada. Mas basta a sua invocação para que nos lembremos de os ouvidos do Filho de Deus não ficarão surdos aos nossos pobres apelos.
            Paralelamente, chama nossa atenção o fato de que a multidão ruidosa aparece como um obstáculo para o encontro entre o médico e o doente. No entusiasmo de seguir o Mestre, a turba anônima se perde em louvores e se esquece das misérias à beira do caminho. Chega a pedir ao cego que cale sua boca...
            Este é um dos riscos que corremos ao fazer da religião uma espécie de realização artística, um permanente “show” para a glória de Deus, sem ter olhos e ouvidos para aqueles que esperam pelo toque salvador que justificaria toda uma enxurrada de salmos de louvor.
            De um lado, o Salvador glorioso. De outro, a multidão de cegos, surdos, aidéticos e aleijados. Para onde se voltará o nosso olhar?
Orai sem cessar: “O Senhor abre os olhos ao cego...” (Sl 146,8)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

domingo, 19 de novembro de 2017

PALAVRA DE VIDA

 Servo bom e fiel... (Mt 25,14-30)
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           A conhecida Parábola dos Talentos se estrutura em dois tempos: a “viagem” do Senhor (quando ele investe nos servidores) e sua “volta” (com o acerto de contas). Não seria exagero pensar que o Patrão viajou e se ausentou apenas para dar aos servidores a oportunidade de demonstrarem a fidelidade deles.

            Na visão do biblista Hébert Roux, o julgamento (ou avaliação) realizado pelo Senhor é orientado pelo critério da FIDELIDADE dos servidores. Esta fidelidade não é outra coisa, senão a fé; pois vive-se na fé quando em tudo nos referimos a Deus, considerando que todos os bens lhe pertencem e são provenientes de sua graça.
            O servo “mau e preguiçoso” – diz H. Roux – é exatamente aquele que não se mostrou comprometido com o serviço de seu patrão em razão do dom gratuito que recebera. De fato, os servos não tinham pedido os talentos que o Patrão lhes confiou. O preguiçoso não se interessa em trabalhar por seu Senhor. Contenta-se em cumprir a lei rabínica: enterrar os talentos, ação considerada suficiente como gesto de segurança material.
            Ouro e prata, cédulas e moedas, ações e terrenos – tendemos a pensar em coisas materiais quando se fala nos “dons” que Deus distribui fartamente entre nós. Um degrau acima, em nossa compreensão, alguns reconhecem os dons de outra natureza, como a inteligência, a criatividade, a memória, a operosidade. Mas ainda é pouco...
            O maior de todos os dons recebidos de Deus é, sem dúvida, nossa alma espiritual. Enquanto corpo e suas faculdades têm prazo de validade, nossa alma é um sopro eterno, que se projeta além da morte e vive para sempre. É esta alma que pode amar, orientar para Deus e para o próximo todos os demais investimentos que o Senhor arriscou em nós...
            Sem a fé (no latim, fides; daí a fidelidade) o homem natural gasta seu tempo investindo no corpo (músculos da academia), na mente (diplomas da Universidade) ou no bolso (poupanças e montepios)... Com a fé, os pobres de Deus podem seguir um tanto magricelas e algo alheios às filosofias do mundo, mas tornam-se capazes de viver no amor, dando frutos de salvação para si e para os outros.
            Os talentos que recebemos estão dando lucro para o Patrão?
Orai sem cessar: “Servi ao Senhor com alegria!” (Sl 100,2)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

sábado, 18 de novembro de 2017

PALAVRA DE VIDA

 Deus não fará justiça? (Lc 18,1-8)
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            Na retórica, as perguntas são utilizadas com diferentes intenções. Há perguntas motivadoras para o auditório. Há perguntas que servem de “escada” para o próprio orador. E há perguntas que dispensam resposta, pois elas são absurdas por natureza.

            É o caso da pergunta acima: Deus, o Justo, deixaria de fazer justiça àqueles que clamam por ele dia e noite? Fica evidente que uma atitude de indiferença ou de neutralidade diante da injustiça atentaria contra a própria natureza divina. Como Deus é justo, acabará por intervir e fazer justiça.
            Para acentuar esta verdade – que deveria ser óbvia - Jesus narra a curta parábola de um “juiz injusto”. Isto, por si só, já é um absurdo: o homem encarregado de fazer justiça é, por definição, um inimigo da própria justiça. E mais: o próprio magistrado tem consciência disso: “Não temo a Deus nem tenho respeito pelos homens!” (Lc 18,4) E assim caem por terra dois pilares da Justiça: a relação vertical com o Criador de todos os homens e a relação horizontal com nossos irmãos humanos.
            Jesus faz entrar em cena a figura da viúva pobre que vai ao juiz injusto em busca de... justiça! Qual seria o teor da causa? Roubaram-lhe a cabra que lhe fornecia dois copos de leite por dia? O inquilino que alugara a casinha do finado marido se recusava a pagar o aluguel? Não vem ao caso, mas tenho convicção de que seria algo pequeno... tão pequeno quanto os pobres de Yahweh.
            E Jesus narra – imagino que pausadamente, sem pressa, estendendo os detalhes, ao gosto dos orientais – as repetidas tentativas da viuvinha para obter um mandado judicial e recuperar seu prejuízo.
            O clímax da narrativa é o momento em que o juiz injusto, sem nenhum amor pela justiça, fica chateado com a insistência da viúva e, mesmo, teme uma agressão física (no original grego, hypopiádze, “acertar meu olho”). Por isso, mesmo sem apreço pela justiça, acaba atendendo à querelante.
            E Jesus conclui: se um magistrado corrompido acaba por atender à insistência de uma viúva, quanto mais o vosso Pai do céu, o Santo e Justo, atenderá a quem lhe pede com insistência!
            Quando rezamos – e o contexto desta parábola é exatamente a oração – não nos dirigimos a um juiz, como esses que julgam processos empoeirados, mas a um Pai cheio de amor. Sendo Pai, atenderá a seus filhos. Ou não?
Orai sem cessar: “Os justos clamam e o Senhor os ouve!” (Sl 34,18)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

PALAVRA DE VIDA

 Como nos dias de Noé... (Lc 17,26-37)
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           Não é possível evitar o impacto do versículo 37: “Onde estiver o corpo, ali se juntarão os abutres.” Também os urubus do Brasil têm um “sexto sentido” que os orienta para a carniça, mesmo a grandes distâncias. A imagem é forte – até mesmo desagradável – mas chama nossa atenção para uma espécie de tropismo animal que orienta o predador para sua presa. Não deveria haver também em nós um tropismo para Deus? Uma atração para as coisas espirituais? Não deveríamos ser capazes de ler os “sinais dos tempos” e, a partir deles, achar o melhor caminho em nossa vida?

            Nos dias de Noé, Deus alertou a humanidade a respeito do dilúvio. Não é difícil imaginar os contemporâneos de Noé a zombar de sua grande (b)arca, apontando para o céu sem nuvens e a distância do mar. Enquanto isso, casavam-se, comiam e bebiam. Pois veio a inundação e todos pereceram...
            Nos dias de Lot, Deus voltou a alertar a humanidade. Devem ter rido de Lot e sua família quando estes fugiram no seu êxodo familiar. Enquanto isso, comiam, bebiam e casavam-se. Pois veio o fogo do céu e foram consumidos. Mais uma vez, os sinais dos tempos foram inúteis. E hoje? Temos sinais? Sinais da natureza como furacões e tsunamis, terremotos e graves alterações climáticas? Sinais da sociedade como guerras e revoluções, aborto legal e eutanásia, casamento homossexual e pedofilia na Internet? Sinais socioeconômicos como as legiões de sem-teto e sem-terra, milhões de refugiados e trabalhadores escravos? Sinais biológicos como pestes e epidemias? Sinais religiosos, como heresias, seitas e deserções?
            Sim, há sinais para “nosso tempo”. Como placas de trânsito, deveriam orientar o rumo que imprimimos à nossa existência. Deveriam desviar-nos da ambição e da acumulação material, levando-nos à partilha dos bens e à solidariedade. Deveriam fazer de nós anunciadores do amor de Deus e da esperança de um mundo novo. Deveriam impedir que perdêssemos tempo em diversões estéreis, joguinhos eletrônicos e fins de semana marcados pela futilidade e pelo devaneio. Deveriam despertar nossas mentes para o essencial. Aumentar nossa capacidade de amar...
            Os fariseus de hoje repetem a mesma pergunta do tempo de Cristo: onde será? Quando será? Mas seus corações continuam afastados do Senhor.
            E o nosso coração?
Orai sem cessar: “Venha a nós o vosso Reino!” (Mt 6,10)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

PALAVRA DE VIDA

 O Reino está dentro de vós... (Lc 17,20-25)
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            Ora, a história recente mostra que a simples ação humana, sem o sopro interior do Espírito, não só é incapaz de aperfeiçoar a sociedade, mas acaba por levar os agentes de pastoral ao stress, ao desânimo e à busca de compensações nada evangélicas... Transpiração sem inspiração, isto sim, é perda de tempo!
            Ao afirmar aos fariseus que o Reino de Deus está dentro da pessoa humana, Jesus ensina que uma voz interior está sempre a dialogar conosco. Há uma “presença” divina no coração humano. A voz da consciência alerta para a responsabilidade moral, as inspirações apontam o caminho, aquela fonte silenciosa brota em momentos especiais: eis alguns sinais dessa presença.
            Lendo a vida dos santos, nós os vemos sintonizados na emissora do Espírito Santo. Uma sintonia fina lhes permitia perceber sua vocação e missão, fortalecendo-os diante dos obstáculos que o maligno ergue contra a obra de Deus. Uma sintonia obtida exatamente por meio daqueles procedimentos que a crítica moderninha chama de perda de tempo: escuta e oração, meditação da Palavra de Deus, intimidade com Jesus nos sacramentos.
            Depois disto, alimentados e iluminados, aí, sim, saíam na direção do pobre e do descrente, do faminto e do desesperado, levando o amor que haviam haurido no deserto com Deus. Apesar de suas fragilidades humanas, temores e inseguranças, limitações intelectuais e psíquicas, esses homens e mulheres eram “portadores de Deus”: levavam o Reino em seu interior. E era essa a mensagem que transformava a vida das pessoas que atravessavam o seu caminho.
            Ler os corações (como Pe. Pio), curar os doentes (como Pe. Emiliano Tardiff), atrair os jovens (como Pe. Jonas Abib), encontrar Jesus nos mendigos (como Madre Teresa) – nada disto se consegue sem a vida interior, alimentada de silêncio e oração.
            Estou atento a Deus que fala em meu interior?

Orai sem cessar: “Que o Pai abra o vosso coração à sua luz!” (Ef 1,18)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

PALAVRA DE VIDA

 Onde estão os nove? (Lc 17,11-19)
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        Em apenas nove versículos, um amplo panorama sobre a realidade humana! Na porta da aldeia de fronteira, dez leprosos marginalizados, definitivamente impedidos de participar da vida social. Como tantos marginais de nosso tempo...

        Vendo a passagem de Jesus, cuja fama de terapeuta há havia chegado até eles, clamam de longe, mas não ousam se aproximar. Como tantos infelizes de nosso século...
        Tomados de doença incurável naquela época, os dez leprosos não têm a quem recorrer. Como tantos enfermos do Brasil, aos quais os serviços de saúde se declaram sem condições de ajudar...
        Necessidade e indiferença... Doença e marginalização... A quem recorrerá o pobre? Neste Evangelho, os pobres leprosos recorrem a Jesus, à espera da esmola da saúde. O verbo que eles utilizam [eleéson] é da mesma família que a palavra “esmola” [eleemosýne], associada ao termo “misericórdia”, inseparável, em grego, do substantivo eláion, o azeite – exatamente o óleo de oliva utilizado para amenizar as feridas da carne humana.
        Não pedem justiça. Não pedem um acerto de contas. Não alegam nenhum mérito pessoal. Apenas clamam por compaixão. Esta é a condição da realidade humana: a miséria. Aquela miséria que faz cócegas na misericórdia e puxa o gatilho do dom...
        A reação de Jesus não parece muito emocionada. Antes, alguém diria que foi algo burocrática, pois apenas os enviou aos sacerdotes do Tempo, legalmente encarregados de examinar uma pessoa e declarar sua pureza ritual (no caso de um leproso, um atestado de saúde).
        Eles obedecem. E nós, modernos, já nos espantamos com sua prontidão. O que os move? Fé? Esperança? Apostam na última tábua de salvação? Não importa. Eles se põem a caminho e logo se percebem curados, sem as marcas de seu mal. Que fazer agora? Ora, curado, vou cuidar da vida. Há trabalhos a fazer. Uma família a recuperar. Novas expectativas. Assim fazem os nove judeus.
        Um deles, o único samaritano, faz diferente. Refaz o caminho e volta a Jesus, prostrando-se a seus pés, neste gesto que só se realiza diante de Deus.
        E Jesus a perguntar: “Onde estão os outros nove?” Pois além da fé e da esperança, quanto bem nos faria a gratidão!...
Orai sem cessar: “Cantai ao Senhor um cântico de gratidão!” (Sl 147,7)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

PALAVRA DE VIDA

Somos servos inúteis... (Lc 17,7-10)
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           Em nossa vida, tudo é graça. Tudo é dom. Mesmo o bem que fazemos, só o fazemos porque o amor de Deus agiu em nós. Um santo dizia: “Se eu pequei, Deus me perdoou; se eu não pequei, Deus me sustentou.” De fato, se o Senhor nos entregar a nós mesmos, a nossas más inclinações, boa coisa não sairá...

            Hoje, mesmo na Igreja, cresce outra vez a heresia pelagiana. Segundo esta concepção do homem, nós seríamos capazes de fazer o bem e chegar à salvação apenas contando com nosso esforço e boa vontade. Leia-se: sem a graça de Deus. Tal mistura de voluntarismo e esforço heroico (derivada de uma ilusão otimista acerca de nossa natureza!) acaba por dispensar Deus e colocar-nos em seu pedestal.
            Ora. Este acesso de loucura existencial é diretamente contradito pelo ensinamento de Jesus: “Sem mim, nada podeis fazer.” (Jo 15,5.) Em tudo, dependemos do Senhor. Sem o Espírito Santo, nos desviamos da verdade. Contando apenas conosco, decaímos em terríveis degradações morais.
            Ora, no Evangelho de hoje, somos interpelados por esta frase dura de engolir: “Somos servos inúteis...” Alguns pretendem atenuar a tradução: “Somos uns servos quaisquer... Somos uns pobres servidores...” Mas é bater de frente contra a tradução direta (e literal) da expressão original de São Lucas!
            Creio que Jesus sabia o que dizia aos nos qualificar assim. Por um lado, ao chamar apóstolos e discípulos, é claro que Jesus contava com nossa cooperação na construção do Reino. Quis precisar de nossa... inutilidade. Por outro lado, o Mestre devia saber do risco que corremos quando cumprimos nossa obrigação e nos julgamos credores de Deus, com direito a regalias e retribuições especiais. Ele sabe como a vaidade modula nossa voz e orienta nossos gestos. Assim, dá-nos o rótulo de “inúteis” como antídoto contra a soberba. Que bom!
            Após uma de minhas primeiras pregações, fui cumprimentado por uma freira bem velhinha (já em fase terminal, devido a um câncer, sem que eu o soubesse). Minha resposta foi pedir-lhe que rezasse por mim, para que eu não ficasse vaidoso. A baixinha cresceu à minha frente, cheia de santa fúria, e botou o indicador em meu nariz: “Vaidoso?! Deus sabe que você, sozinho, não vale nada!”
            Deus lhe pague, Irmã Margarida!
Orai sem cessar: “Ó Deus, conheces a minha tolice!” (Sl 69,6)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.