quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

PALAVRA DE VIDA

 Não surgiu quem fosse maior... (Mt 11,11-15)

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            Estamos falando de João Batista, o precursor [em grego, pródromos, isto é, “o que corre na frente”]. E esta avaliação que ele mereceu de Jesus de Nazaré é um elogio notável, pois o coloca acima de todos os patriarcas e profetas da Primeira Aliança.

            E qual será a razão deste elogio excepcional? Até onde posso ver, trata-se de sua escolha para ser a “voz imediata” no anúncio do Reino que se avizinhava na pessoa do Messias, Jesus Cristo. Cheio do Espírito Santo desde o ventre materno (Lc 1,44), cumpriria sua missão ao preço da própria vida.
E isto me faz pensar que não temos dada a devida consideração nem o devido valor às pessoas que também assumem a mesma missão: ser uma voz que anuncia o Senhor. Ao mesmo tempo, ajuda a compreender por que os tiranos de todos os quadrantes, de todas as épocas, se apressam a calar as vozes que repetem o Evangelho...
            Hoje, no deserto das grandes cidades, somos chamados a assumir missão semelhante à do Batizador. Quem nos fala sobre isso é o Bispo do Saara argelino, Claude Rault:
            “Nossa vocação é a de ser como João Batista: traçadores de estradas, humildes caminheiros do Bom Deus! O Batista tem consciência disso: ele abre a estrada para aquele que vem depois dele, ele caminha por um Outro. Isto exige fidelidade, confiança e gratuidade nas relações. Assim se traça um caminho, e outros continuarão a assumi-lo. Invisível, Jesus pisa sobre nossos passos.
            João Batista traça um caminho, ele é um caminheiro cujas passadas acabam por nos deixar uma trilha. É a figura que ainda hoje nos inspira. A seu modo, somos chamados a deixar uma esteira na vida deste mundo, como estradeiros infatigáveis. A rota que deixamos atrás de nós será tomada por outros. É isto que fazemos no grande deserto da vida...”
            Mas o mesmo profeta nos deixa outra lição: apagar-se, distanciar-se, sair do foco. Quando cercam João Batista, inquirindo-o se seria o Messias esperado, ele não só o nega, mas se põe em segundo plano: “Não sou digno de lhe desamarrar as sandálias”. E arremata o lema que devemos assumir nas missões da Igreja: “Importa que ele (Jesus) cresça, e eu diminua...”
            O arauto corre o risco permanente de se confundir com o Rei. Sua missão é apenas tocar a trombeta e perder-se na multidão que espera pelo Senhor.

Orai sem cessar: “Quero ensinar teus caminhos aos que erram... (Sl 51,15)

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

PALAVRA DE VIDA

 Encontrareis descanso... (Mt 11, 28-30)

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            O pecado cansa. Esgota o coração. Corrói a alma. Assim, é em primeiro lugar ao pecador que se dirige o convite de Jesus, ao qual está anexa esta promessa: “Vinde a mim! Eu vos aliviarei... Encontrareis descanso...”

            Pense no filho pródigo: deixou a casa paterna e partiu para uma região distante. Lá, “curtiu” a vida, perdeu tudo, até os amigos dos tempos de fartura, e sonha agora com a lavagem dos porcos. Isto cansa.
Não admira que comece a avaliar a conveniência de voltar para casa, ainda que seja como reles empregado. Claro que a vergonha o respeito humano hão de retardar o seu regresso, mas acabará voltando. Ele precisa descansar...
            A missão também cansa. Até Jesus aparece cansado de suas andanças, quando o Evangelho de João o surpreende sentado junto ao poço de Jacó (cf. Jo 4, 6.) Como podemos ler nas cartas do apóstolo Paulo, a vida missionária inclui viagens estafantes, oposições surdas, indiferenças, contestações ásperas, colheitas ralas. Isto cansa.
Não admira que muitos missionários tenham desistido de seu ministério, enquanto outros precisaram refugiar-se no silêncio para recuperar o dinamismo perdido. E depois de mergulhar no coração de Cristo, retomaram a missão, muitas vezes chegando à palma do martírio.
Muita gente anda cansada de fazer força e obter resultados pouco animadores. Acontece com os pais que educam filhos rebeldes, imaturos, preguiçosos. Acontece com os educadores que sofrem as consequências de políticas educacionais desastrosas. Acontece com os profissionais da saúde que labutam em hospitais onde falta até o esparadrapo. Isto cansa.
Não admira que haja médicos fabricando pão e psicólogos vendendo pipocas. Não admira que tantos professores tenham perdido o entusiasmo com sua profissão. Não admira que tantos casais já não queiram filhos. Estão cansados de lutar.
Ora, é para todos vocês que Jesus está dizendo: “Vinde a mim!” Esse cansaço encontrará descanso nos braços do Senhor. É ali, na intimidade de Cristo, que o fiel há de recuperar o impulso missionário e os pais descobrirão uma nova capacidade de amar.
Afinal, não era assim que rezava Santo Agostinho? “Senhor, tu nos fizeste para ti, e em vão procura o nosso coração, até que repouse em ti!”
Orai sem cessar: “Descansa junto ao Senhor, espera nele.” (Sl 37 [36], 7)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

PALAVRA DE VIDA

 Ela entrou na casa... (Lc 1,39-47)

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            O Evangelho de hoje nos fala de um “encontro”. Isabel – imagem da Antiga Aliança – recebe a visita de Maria – a “arca” da Nova Aliança. É o encontro do passado com o presente. Encontro das promessas com o seu cumprimento. Do provisório com o eterno.

            Tão logo recebe o anúncio de Gabriel, que lhe revela a sublime missão de ser o canal escolhido para a Encarnação do Filho de Deus, Maria de Nazaré sai às pressas, pelas montanhas de Judá, subindo até Ain Karim, onde morava Isabel de Zacarias, sua parenta idosa, já no sexto mês de gravidez. Ao entrar em casa, Maria saúda Isabel e esta, prontamente, fica cheia do Espírito de Deus.
            Estamos diante de uma evidência: a graça de Deus se comunica. A Toda-Santa – a Mãe de Deus – irradia à sua volta o dinamismo espiritual que a inunda. Um abraço apenas, uma palavra – Shalom! – bastam para que o Espírito Santo se derrame do coração de Maria ao coração de Isabel. E esta se espanta diante da honra desmedida de ser visitada pela Mãe de seu Adonai, o Senhor Deus...
            Estamos diante de uma situação mais ou menos comum: quem recebeu a visita de uma pessoa santa, experimentou nela uma “presença” que não se explica apenas por fatores humanos. Não é sem motivo que as multidões procuravam pelo Pe. Pio de Pietrelcina, ou fazem romarias ao túmulo do Pe. Eustáquio, e preferem a missa de certos sacerdotes.
            Sim. É muito fácil acusar as multidões de simples ignorância ou grosseira superstição. Mas o povo possui uma espécie de “sexto sentido” que lhe aponta as pessoas habitadas por Deus. Na Rússia do Séc. XIX, São Serafim de Sarov precisava ocultar-se na floresta para ter um mínimo de solidão que lhe permitisse rezar. Madre Teresa vivia cercada pelos mendigos de Calcutá, além de atrair milhares de vocações. Os discípulos de São José de Calasanz chegavam a espiá-lo pela fechadura, para vê-lo em oração, levitando centímetros acima do solo.
            E nós? Sente-se a presença de Deus em nossa vida? Nossos gestos e palavras manifestam a ação de Deus em nós? Quem faz contato conosco também pode louvar e dar graças a Deus, como Isabel visitada pela Virgem Mãe?

Orai sem cessar: “Anunciarei vosso nome a meus irmãos.” (Sl 22 [21], 23)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

PALAVRA DE VIDA

Quem pode perdoar pecados... (Lc 5,17-26)

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            Em um primeiro momento, comovido pela fé dos quatro amigos que, diligentemente, trouxeram o enfermo à sua presença, Jesus lhe confere o perdão dos pecados. Claro que isto não se nota “do lado de fora”, é um milagre íntimo da onipotente misericórdia de Deus. Os escribas e fariseus ali presentes entendem as palavras de Jesus como autêntica blasfêmia, pois “só Deus pode perdoar pecados”. Não podem crer na transformação ocorrida naquele doente.
            Logo, em tom de desafio, Jesus ordena ao paralítico que se erga do catre e volte para casa, carregando a enxerga. Isto, sim, podia ser visto e comprovado. E Jesus o fez como sinal de que seu primeiro gesto também fora verdadeiro.
            Deixando de lado a evidência de que muitos males físicos têm como raiz algum tipo de pecado crônico, fixemos nosso pensamento em um ponto de máxima atualidade. Nossa sociedade está paralisada diante das crises e desafios do novo milênio. Violência e insegurança, corrupção e depravação dos costumes, rebeldia e choque de gerações - de todos esses males, brota na humanidade uma terrível sede de reconciliação. Vale a pena recordar as palavras do saudoso Papa João Paulo II:
            “O mesmo olhar indagador, se é suficientemente perspicaz, captará no seio da divisão um desejo inconfundível, da parte dos homens de boa vontade e dos verdadeiros cristãos, de recompor as fraturas, de cicatrizar as lacerações e de instaurar, em todos os níveis, uma unidade essencial. Este desejo comporta, em muitos casos, uma verdadeira nostalgia de reconciliação, mesmo quando não é usada tal palavra.” (Reconciliação e Penitência, 3.)
            A causa mais profunda da doença existencial de nosso tempo, que se manifesta como stress e depressão, vazio e ausência de sentido, pode ser identificada como um sentimento de culpa que rói a alma humana. Lá no fundo, o homem sabe que se afastou do Pai, recusou sua voz, maculou sua imagem.
            Como o pródigo do Evangelho, o homem “sabe” que existe um lar à sua espera. E intui que a comida dos porcos não alimentará seu espírito. Por isso mesmo, tem saudades de Deus. Por que, então, não voltar à casa do Pai?
Orai sem cessar: “Volta, Israel, ao teu Senhor!” (Os 14,1)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

domingo, 10 de dezembro de 2017

PALAVRA DE VIDA

Ele vos batizará no Espírito Santo... (Mc 1,1-8)

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            Este Evangelho contrapõe dois personagens: João Batista e Jesus Cristo. Contrasta, igualmente, dois batismos, dois “mergulhos”. De um lado, o batismo “de João”, nas águas puras do Jordão, como um rito penitencial ao qual o povo se submetia enquanto sinal de contrição e arrependimento de seus pecados, diante da iminência do Reino de Deus que se avizinhava. De outro, o batismo “no Espírito”, que Jesus iria realizar.

            As diferenças são evidentes: a água lava por fora. O fogo cauteriza por dentro. O primeiro batismo significava a graça, o segundo vem conferi-la. No primeiro, o pecador se reconhecia como tal; no segundo, o pecador era santificado. O primeiro é preparação para a vida, o segundo é plenitude de vida.
            Só depois de Pentecostes os discípulos perceberiam o alcance dessa promessa e o dinamismo infundido em seus corações. Hoje, mais do que nunca, a missão da Igreja e de cada fiel depende radicalmente de um “mergulho” no Espírito de Deus. Sem ele, não temos luz nem força para caminhar.
            Hoje, convido você a se abrir à visita do Espírito de Deus e pedir um novo Pentecostes em sua vida pessoal, fazendo de meu soneto “Invocação” a sua ardente prece:

Pomba de fogo, desce sobre mim!
Vem dissolver os blocos de meu gelo:
Abrasa o coração... Vem derretê-lo
Com o gládio abrasador de um querubim!
Quero sentir a tua chama, assim,
Gravando no meu íntimo o teu selo:
Inflamado serei pelo teu zelo
E poderei amar até o fim...
Arromba minhas portas, Santo Vento!
Abre as janelas do meu aposento!
Fende a muralha, abate o meu portão!
E, enquanto o meu castelo já se arromba,
Vejo pousar em mim a aérea pomba,
Transfigurando em luz meu coração...
Orai sem cessar: “Batiza-me, Senhor, com teu Espírito!”

Texto e poema de Antônio Carlos Santini, da Com. Católica Nova Aliança.

sábado, 9 de dezembro de 2017

PALAVRA DE VIDA

 Ide às ovelhas desgarradas! (Mt 9,35-10,1.6-8)

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            Todo pastor sabe disso: as ovelhas costumam tresmalhar. Todo boiadeiro já passou por isso: um novilho desgarrar e se embrenhar no matagal, ou atolar-se no brejo. Mas nenhum pastor que se preze fica indiferente ao desastre. Como aquele do Evangelho – o que tinha cem ovelhas – e preferiu deixar as noventa e nove no ermo para sair em busca da que se perdeu.

            Vivemos um tempo de ovelhas desgarradas. Sim, eu sei que o ser humano é errático: seu trilho neste mundo lembra de perto a rota das formigas, que parecem desconhecer a linha reta entre dois pontos. Homo viator, perpétuo peregrino, vagamos de lá para cá, em sufocantes engarrafamentos a cada feriado “enforcado”, sempre em busca de uma felicidade “que está sempre apenas onde a pomos, e nunca a pomos onde nós estamos” (Vicente de Carvalho).
            Mas isto não justifica nossa indiferença diante daqueles que saíram da estrada real e se perderam nas trilhas do erro e do mal. De algum modo, somos todos responsáveis uns pelos outros. Os pais pelos filhos. Os mestres pelos alunos. Os médicos pelos pacientes. Os governantes pelo povo. Os pastores por suas ovelhas espirituais.
            Quando Jesus andou pela Palestina, também ele pôde contemplar o povo faminto de Deus, uma multidão de párias pelas encruzilhadas, mendigos e leprosos, refugiados e sem-terra. E Jesus chorou sobre eles. Mas não se limitou a chorar: enviou ao povo os seus discípulos com um mandato bem específico: “Ide às ovelhas desgarradas!”
            Esta missão inclui cuidados espirituais (anunciar o Reino que se fez próximo, expulsar demônios), mas também cuidados materiais (curar enfermos, ressuscitar mortos, limpar leprosos (cf. Mt 10,8). Aquilo que recebemos como dom gratuito (fé, alegria, paz, saber, habilidades) deve ser levado àqueles que ainda jazem na descrença, mergulhados na tristeza e na ignorância.
            E quando os desprezados deste mundo perceberem que alguém se interessa por eles, saberão que Deus não os esqueceu e enviou seus profetas para mostrar-lhes o Sol nascente. Naturalmente, um sistema baseado no lucro e na competição há de estranhar a “loucura” desses pastores, que abrem mão da própria terra, da própria cultura e – pasmem! – até mesmo de constituir uma família, porque seus filhos e irmãos são os pequeninos deste mundo!
E nós? Estamos cuidando das ovelhas que ele nos confiou?
Orai sem cessar: “Eis-me aqui, Senhor!” (Gn 22,1)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

PALAVRA DE VIDA

 Faça-se em mim... (Lc 1,26-38)

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            A cena deste Evangelho é o momento da Encarnação do Verbo. O mensageiro divino vai à jovem Maria de Nazaré. Qual seria o objetivo de sua missão? Por que Deus terá enviado Gabriel até uma pobre aldeia dos galileus? Acompanhemos a meditação de François Trévedy:

            “Tendo batido a tantas portas sucessivas, Deus acaba por bater a esta porta: a mais baixa, a mais estreita, a mais obscura; a esta “porta do céu” – Felix coeli porta – que é de início, simplesmente, a porta da terra. Ele bate à parede da carne mais escondida para escutar o som que esta lhe dará: Ecce ancilla Domini [eis a escrava do Senhor].
            É ali, bem baixo, que se passará o mínimo anel, a menor das alianças; é ali, no mais ínfimo da condição humana, que se vai escrever e fazer a conjunção de coordenação do Verbo e do homem, do Nome e de nós: Emmanuel.
            Esta página não é uma mitologia, mas, sob o signo da Mulher - Signum magnum (Ap 12,1) – é a história da Aliança em sua extrema consequência carnal, pois, afinal, em seu desejo apaixonado pela carne, Deus é perfeitamente lógico consigo mesmo: ele vem, ele quer fazer seu noviciado de extrema pequenez, para virar de cabeça para baixo os tronos das ideias imperiais que nós fazemos dele e que, na realidade, só escondem nossas próprias pretensões.
            Ingreditur haec ínfima Iesus Christus [Jesus Cristo penetra nos subterrâneos deste mundo – S. Leão Magno]. Em outras palavras, o Infinito faz conhecimento carnal com o ínfimo.”
            Fracassaram todas as alianças anteriores. Desde Noé, passando por Abraão e Davi, os filhos de Eva foram infiéis à aliança com o Altíssimo. Que faz ele, por não desistir de seu anseio de aliança conosco? O Altíssimo desce. E precisa de um espaço humano uma carne – que o acolha de forma plena, cabal, definitiva. Este “espaço” é Maria, Mãe de Deus. E sua resposta ressoa pela imensidão do Cosmo: “Faça-se em mim segundo a tua Palavra!”
            Não é ela quem faz. Ela diz: faça-se, seja feito. E o agente, o Autor do grande milagre – o Verbo feito carne mortal – é o Espírito criador, o mesmo que insuflara as narinas do primeiro homem.
            O Filho que ela nos dá como presente de Natal é o primeiro homem de uma nova humanidade: o novo Adão, Jesus, delícia do Pai, delícia de todos nós.

Orai sem cessar:“Conservo no coração tuas palavras...” (Sl 119,11)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança