Pouco sabemos sobre o deserto. Quase
sempre, pensamos nele como um inóspito areal, onde o vento e as tempestades de
areia se alternam com o dia tórrido e as noites gélidas. No fundo, tememos o
deserto. É que quando não há ninguém à vista, somos constrangidos a olhar para
nosso interior...
Quando Charles de Foucauld abandonou
as luzes fugazes de Paris e mergulhou na solidão de Tamanrasset, no deserto de
Marrocos, ela sabia muito bem a quem procurava. Ou melhor: Quem procurava por
Charles... O deserto era o lugar do encontro definitivo com Deus. Ali, na
áspera ermida de pedras, que ele ergueu com as próprias mãos, Jesus Cristo
seria o absoluto, sem competidores. Joelhos dobrados diante da Hóstia
consagrada, Charles se limitaria a amar e ser amado...
No Evangelho de hoje, o “deserto”
significava uma oportunidade de descanso, longe da multidão. Mas seria também o
tempo de intimidade com o Mestre, quando ele ensinava os mistérios do Pai em linguagem
“traduzida” (cf. Mt 13,36), acessível, sem figuras. E o discípulo precisa do
deserto. Não pode viver todo o tempo tragado pela multidão. Não pode ser
arrastado pela enxurrada a que chamam de “civilização urbana”. Afinal, como
dizer ao povo a Palavra de Deus, se não temos tempo para escutar o que Deus nos
quer falar?
Na verdade – confessemos -, não é só
para Deus que não temos tempo. A mãe não tem tempo para os filhos. O esposo não
tem tempo para a esposa. Nem o chefe quer ser incomodado pelos subordinados.
Estamos tão atarefados em realizar nossos projetos (e os inadiáveis projetos
das empresas, aqui incluída a instituição eclesial!), que mais parecemos um barquinho
de papel arrastado pela correnteza...
Ouviremos a voz de Deus que nos
chama ao deserto? Ouviremos o convite de amor que anseia por nossa intimidade?
Seríamos capazes de desligar a TV, cancelar compromissos, rasgar a agenda?
Ou, ao contrário, continuaremos
sufocados pelo caos tecido de ruído e buzinas, rock e sirenes, respirando ao
ritmo desumano de nossos celulares? Nós seremos sempre os dentes da engrenagem
impiedosa que ocupa o coração humano, fechando-o aos apelos do amor que morre
de fome ali na esquina?
No silêncio do deserto, Deus espera
por nós...
Orai sem
cessar: “Vou
abrir um caminho em pleno deserto!” (Is 43,19b)
Texto de
Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.
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