domingo, 22 de julho de 2012

PALAVRA DE VIDA

Vinde a um lugar deserto! (Mc 6,30-34)
            Pouco sabemos sobre o deserto. Quase sempre, pensamos nele como um inóspito areal, onde o vento e as tempestades de areia se alternam com o dia tórrido e as noites gélidas. No fundo, tememos o deserto. É que quando não há ninguém à vista, somos constrangidos a olhar para nosso interior...
            Quando Charles de Foucauld abandonou as luzes fugazes de Paris e mergulhou na solidão de Tamanrasset, no deserto de Marrocos, ela sabia muito bem a quem procurava. Ou melhor: Quem procurava por Charles... O deserto era o lugar do encontro definitivo com Deus. Ali, na áspera ermida de pedras, que ele ergueu com as próprias mãos, Jesus Cristo seria o absoluto, sem competidores. Joelhos dobrados diante da Hóstia consagrada, Charles se limitaria a amar e ser amado...
            No Evangelho de hoje, o “deserto” significava uma oportunidade de descanso, longe da multidão. Mas seria também o tempo de intimidade com o Mestre, quando ele ensinava os mistérios do Pai em linguagem “traduzida” (cf. Mt 13,36), acessível, sem figuras. E o discípulo precisa do deserto. Não pode viver todo o tempo tragado pela multidão. Não pode ser arrastado pela enxurrada a que chamam de “civilização urbana”. Afinal, como dizer ao povo a Palavra de Deus, se não temos tempo para escutar o que Deus nos quer falar?
            Na verdade – confessemos -, não é só para Deus que não temos tempo. A mãe não tem tempo para os filhos. O esposo não tem tempo para a esposa. Nem o chefe quer ser incomodado pelos subordinados. Estamos tão atarefados em realizar nossos projetos (e os inadiáveis projetos das empresas, aqui incluída a instituição eclesial!), que mais parecemos um barquinho de papel arrastado pela correnteza...
            Ouviremos a voz de Deus que nos chama ao deserto? Ouviremos o convite de amor que anseia por nossa intimidade? Seríamos capazes de desligar a TV, cancelar compromissos, rasgar a agenda?
            Ou, ao contrário, continuaremos sufocados pelo caos tecido de ruído e buzinas, rock e sirenes, respirando ao ritmo desumano de nossos celulares? Nós seremos sempre os dentes da engrenagem impiedosa que ocupa o coração humano, fechando-o aos apelos do amor que morre de fome ali na esquina?
            No silêncio do deserto, Deus espera por nós...

Orai sem cessar:Vou abrir um caminho em pleno deserto!” (Is 43,19b)
Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

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