Trago as primícias... (Dt 26,4-10)
Este texto
do Velho Testamento faz breve resumo da atuação salvadora de Deus na história
do povo de Israel. O arameu errante é Jacó-Israel a serviço de Labão, em Harã.
Mais tarde, escravo de Faraó no Egito, ganha a libertação e faz Aliança com o
Deus libertador. Ao tomar posse da Terra Prometida, já pode semear e colher seu
pão. Mas não pode esquecer que tudo pertence a Yahweh: a terra, o pão e... o
próprio Israel.
Natural,
pois, que o povo faça esta profissão de fé através da apresentação das
primícias (os primeiros frutos da colheita / as primeiras crias do rebanho)
junto ao altar de Deus. Os dons apresentados no cesto – comenta von Balthasar –
não são mais que a imagem simbólica da disposição de fé. A negação das
primícias é, na prática, a recusa da fé.
Estaremos
sempre diante da tentação de tomar posse e devorar tudo como senhores
absolutos. Este pecado não é privilégio do casal do Éden... Nossa condição de
criatura, porém, deve incluir o ato de submissão que reconhece que todos os
dons nos vêm de Deus e devem ser objeto de ação de graças. Não foi à toa que o
Tentador propôs a Jesus, no deserto, que mudasse as pedras em pão. Equivale a
dizer: “Tome posse! Coma por conta própria! Seja seu próprio fornecedor! Tome
seu destino em suas próprias mãos! Seja Deus!”
Ora, Jesus
Cristo é Deus, mas se recusa a agir independente do Pai e repele a insinuação
que Adão e Eva acolheram no passado. Filho submisso ao amor paterno, Jesus
confia que o Pai o alimentará. Fiel à lei do Sinai (“Não vim abolir, mas
cumprir!” Mt 5,17), Jesus se inscreve na antiga tradição de um povo que
separava para Deus os primeiros frutos da terra, como sinal de reconhecimento,
ação de graças e alegre submissão.
A
alternativa à submissão consiste em agir como dono e patrão, tudo explorar em
benefício próprio, acumular a produção além das necessidades reais, mesmo às
custas da devastação ambiental e da fome das multidões. A opção do capitalismo
selvagem ignora os direitos de Deus e atropela os direitos do próximo. Lobo do
homem, o homem explora, acumula, devora. Obviamente, não paga os dízimos do
Senhor...
Onde estão
nossas primícias?
Orai sem cessar: “Onde passastes, Senhor, ficou a
fartura!” (Sl 65,12)
Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova
Aliança.
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