Vimos o Senhor! (Jo 20,19-31)
Muitas vezes, temos sido um tanto ásperos
em nossas críticas ao apóstolo Tomé, que condicionou seu ato de fé a uma
experiência sensorial do Ressuscitado: ver as marcas dos cravos em suas mãos,
tocá-las com os próprios dedos, levar a mão à chaga do Lado. “Se não vir... não
acreditarei!” E nos esquecemos de que os outros dez levavam vantagem: eles
tinham visto!
Não temos como imaginar o impacto
emocional sofrido por eles quando Jesus, sabidamente morto, se apresenta vivo,
visível, palpável, assentando-se à mesa com os discípulos. E nós deveríamos ser
mais compreensíveis com Tomé que, ausente na primeira “visita” do Mestre, não o
pudera ver.
Podemos também avaliar a perplexidade de
Tomé ao rever os apóstolos e ouvir deles o testemunho emocionado: “Vimos o
Senhor!” É o testemunho fundamental da Igreja: a experiência pascal do Cristo
que venceu a morte. Sem ele, nossa fé e nossa pregação seriam vãs (cf. 1Cor 15,14).
Exatamente por avaliar o potencial explosivo de um testemunho assim, os homens
do Templo espalhariam o boato do roubo do corpo de Jesus (cf. Mt 28,13).
Os séculos passam, sucedem-se as gerações
e nossa fé cristã continua a se apoiar nesse testemunho do começo: a
experiência vital daqueles que “viram” a Jesus Cristo ressuscitado. De tudo o
que nos foi passado pelos Evangelhos e pela Tradição apostólica, o ponto
central está aí ancorado: Jesus ressuscitou!
Levados aos tribunais e arenas, diante de
juízes e carrascos, as testemunhas permanecerão firmes em declarar com audácia
o conteúdo de sua experiência. Um ato de fé da Igreja e de cada fiel que os
leva a uma opção radical entre o martírio e a apostasia. Estêvão seria lapidado
– ele, o protomártir – exatamente por este ato de fé. Pelo mesmo motivo Paulo
seria preso e degolado.
Nós nascemos depois, em outra fatia da
História. Mas nossa fé continua a mesma. Os bispos presos na China e os monges
degolados por fanáticos islâmicos em Tibhirine, no Monte Atlas, reavivam a
mesma chama no final do Séc. XX. Nós não vimos, mas cremos. E acabamos
por merecer do próprio Cristo uma nova bem-aventurança: “Bem-aventurados os
que não viram e creram!” (Jo 20,29.)
Como anda a nossa fé? Damos testemunho de
Jesus em nosso meio? Ou nossa chama ameaça apagar-se?
Orai sem cessar: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20,28)
Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova
Aliança.

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