“Permanecei na cidade!” (Lc 24,46-53)
No cenário de sua ascensão de volta
ao Pai, de Quem viera como o máximo dom à humanidade, Jesus ressuscitado ordena
aos discípulos que permaneçam em Jerusalém, à espera da promessa do Pai: o dom
do Espírito Santo para dotar a Igreja dos carismas necessários à sua missão de
continuar a obra do Filho.
Compreende-se a necessidade deste
imperativo: Jerusalém era a mesma cidade que rejeitara o Messias prometido e o
crucificara como um maldito (cf. Gl 3,13), fora de suas muralhas. A inclinação
natural do discípulo seria voltar as costas para a cidade e buscar novos ares.
Se possível, sacudiriam o pós das sandálias e buscariam outro campo de ação.
A cidade moderna, áspera e hostil,
também nos condiciona para a fuga. Concentração demográfica, favelização
crescente, transporte coletivo deficiente onde os homens viram gado, poluição,
estresse – tudo faz sonhar com um recanto bucólico, uma casa no campo, “com
meus discos e livros, e nada mais”, como no conhecido rock-rural...
Mas a cidade continua a ser o lugar
de encontro com os homens e as mulheres. Ainda é “na cidade” que o Espírito de
Deus precisa descer em poderoso Pentecostes, para mudar covardes em apóstolos,
semiletrados em poliglotas, roceiros em cidadãos do mundo. É nos grandes
aglomerados urbanos que se faz mais urgente a presença viva e fraterna de
cristãos cheios do Espírito, dispostos a dar o testemunho de um Reino que se
constrói com carne e sangue, sofrimento e oração.
Natural, a cidade faz sofrer. Mas o
cristão não foge da cruz. Como escreveu o Papa Bento XVI, “sofrer com o outro,
pelos outros, sofrer por amor da verdade e da justiça; sofrer por causa do amor
e para se tornar uma pessoa que ama verdadeiramente: estes são os elementos
fundamentais de humanidade, e seu abandono destruiria o próprio homem”. (Spe Salvi, 39.)
Este é um belo programa de vida:
permanecer na cidade dos homens para transformá-la na Cidade Deus. A esperança
cristã é capaz desta aposta: transfigurar o concreto e o asfalto em cenários
iluminados pelo amor e pela caridade. Nesse dia os muros serão abatidos, as
cercas retiradas, e uma alegre ciranda abrirá espaço para os velhos e as
crianças.
Você tem esta esperança?
Orai sem
cessar: “Um rio
com seus canais alegra a cidade de Deus!” (Sl 46,5)
Texto de
Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

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