A
minha casa... (Mc
11,11-26)
Como
uma cunha cravada no tronco, a passagem em que Jesus expulsa os vendilhões do
Templo de Jerusalém também se encrava entre a maldição da figueira (11,11-14) e
a verificação de que a árvore havia morrido de um dia para o outro (11,20-21).
A ausência de frutos parece mortal...
Ora,
o Templo sobre o Monte Sião fora erguido como “o” lugar dedicado à adoração do
Senhor. Em seu compartimento sagrado – o Santo dos Santos – guardava-se a Arca
da Aliança com os três testemunhos da presença de Deus no meio do Povo
Escolhido: as duas tábuas da Lei, a vara de Aarão que florescera e uma amostra
incorruptível do maná (cf. Hb 9,4).
Quando
algo sagrado é desviado de sua função, estamos diante de uma profanação. Este
foi o motivo da cólera de Jesus, ao entrar no pátio do Templo e contemplar a
cena insuportável: o burburinho da troca de moedas, do comércio de cabeças de
gado, tudo isto somado ao mau cheiro do estrume animal e do sangue das vítimas.
A Casa do Pai não merecia aquela degradação...
O
espaço sagrado reservado para salmos e cânticos, o lugar de oração e jejum, o
oásis espiritual para a glória de Deus e a adoração humana fora degenerado em
um misto de mercado e caravançará. Como pano de fundo, a sede de lucro, a
oportunidade de “faturar” com as devoções populares, como se verifica ainda
hoje em locais de peregrinação.
O
comércio era controlado pelas famílias dos saduceus, nas quais eram escolhidos
os sumos sacerdotes. O poder religioso aliava-se ao político e econômico. Alijava-se
Deus de seu pedestal em benefício da avareza humana.
Ora,
a verdadeira “casa de Deus” não são os edifícios de pedra e tijolo (cf. At
7,48; 17,24). O autêntico “lugar” onde o Senhor quer habitar é o nosso coração.
Nós somos o verdadeiro Templo de Deus (cf. 1Cor 3,16-17; 6,19-20). De nada
adianta embelezar nossas igrejas e capelas se nosso coração ainda é lugar de
comércio com os demônios...
Daí
a voz de Mestre Eckart [1260-1328]: “Se queres ser absolutamente vazio de todo
esse comércio, de modo que Deus te deixe nesse templo, é preciso que faças tudo
que és capaz, em todas as tuas obras, e vises tão somente à glória de Deus.
Apenas se ages assim, tuas obras serão espirituais e divinas, pois nem todos os
mercadores foram expulsos do Templo, e Deus ali não mora exclusivamente se o
homem não pensar somente nele”.
Orai sem cessar: “Senhor, gosto da casa onde
moras!” (Sl 26,8)
Texto de Antônio Carlos Santini, da
Comunidade Católica Nova Aliança.
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