Seu povo e seu rebanho... (Sl 100 [99])
Quando
o Concílio Vaticano II (1963-1965) definiu a Igreja como “povo de Deus” (Lumen Gentium, 9), não fazia mais que
reafirmar o desígnio de Deus de ter um povo “seu”. Desde as primeiras páginas
do Antigo Testamento, o Senhor manifestou sua vontade: “Gravarei a minha Lei
nas suas entranhas e a escreverei nos seus corações, e serei o seu Deus e eles serão o meu povo”. (Jr 31,33)
À
primeira vista, é a submissão à Lei que define a pertença ao povo do Deus que a
escreveu nas pedras do Sinai com seu dedo de fogo (cf. Ex 31,18). No entanto,
muito mais que um Senhor, Deus é o Esposo, em um casamento-Aliança onde o povo
é a Esposa escolhida. Com isso, o vínculo
da Lei é superado pelo vínculo do amor.
São
comoventes as expressões do profeta Oseias, reveladoras da nova relação entre o
Criador e a criatura, não mais como indivíduos, mas como um povo esponsal.
“Pois, agora, eu é que vou seduzi-la, levando-a para o deserto e falando-lhe ao
coração. Eu me casarei contigo para sempre, casamos conforme a justiça e o
direito, com amor e carinho.” (Os 2,16.21)
Uma
aliança de amor não pode ser rompida. Uma curiosa passagem da Escritura parece
mostrar Moisés como advogado de defesa desse matrimônio entre o Senhor e seu
povo. Como o líder tardasse na montanha, o povo fabricou um bezerro de ouro
como ídolo para seu culto. Deus “reage” propondo a destruição de Israel, mas
garantindo a Moisés numerosa descendência.
A
frase atribuída a Yahweh foi esta: “Vai, desce, porque se corrompeu o TEU povo
que tiraste do Egito”. Moisés retruca: “Por que, Senhor, se inflama a vossa ira
contra o VOSSO povo, que tirastes do Egito com o vosso poder e a força de vossa
mão?” (Ex 32,7.11) O povo não pertencia a Moisés, mas exclusivamente a Deus.
Deus
continua sofrendo com as infidelidades de sua esposa, que somos nós. Nas crises
e infortúnios, recorremos ao Esposo. Passada a crise, voltamos aos nossos
bezerros dourados e prestamos culto a ídolos mudos, mas ásperos feitores de escravos.
Apesar
disso, ao longo da história, surgiram homens e mulheres admiráveis, de coração
apaixonado pelo Esposo, que consagraram suas vidas para que Deus fosse mais
conhecido e mais amado. Na esteira de João Batista e dos apóstolos, dos
mártires e dos confessores, dos eremitas e dos grandes missionários, um pequeno
“resto de Israel” reafirma sua fidelidade à Aliança celebrada para sempre.
Seria
este o nosso caso?
Orai sem cessar: “Feliz o povo que caminha na luz de vossa
Face!” (Sl 89,15)
Texto de Antônio Carlos Santini,
da Comunidade Católica Nova Aliança.
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