E Jesus gemeu... (Mc 7,31-37)
Como
é comovente perceber a forma como transparece nos santos Evangelhos a
humanidade do Filho de Deus nascido de Mulher! Aqui e ali, discretamente, no
tecido da narrativa, Jesus tem fome (Mt 4,2), se cansa (Jo 4,6), se encoleriza
(Jo 2,15), chora (Lc 19,41) e... geme...
Nesta
passagem de Mc 7,34, o verbo do texto grego original é “estenaxen”, isto é, “gemeu”, denunciando um movimento profundo de
toda a pessoa do Mestre no instante em que se dispõe a curar o surdo-mudo. Não
se trata apenas de dizer alguma palavra mágica, mas de recorrer ao poder do
alto em uma atitude totalizante, que inclui os olhos erguidos ao céu e um
gemido que brota da carne mortal.
Para
Jean Valette, “é preciso ir mais longe na reflexão sobre este gemido de Jesus.
O verbo ‘gemer’ encontra-se raramente no Novo Testamento, mas em passagens
importantes e, em particular, na Carta aos Romanos e na 1ª Carta aos Coríntios,
que parecem passagens esclarecedoras para nosso propósito. Nelas, Paulo fala do
gemido dos fiéis e de toda a Criação à espera da redenção definitiva (Rm 8,22),
mas também do Espírito que intercede por nós com gemidos inefáveis (Rm 8,26).
O
gemido de Jesus assim se compreende como o grito de sua carne e de seu espírito
diante do poder do mal e do preço que deverá pagar pela vitória. O gemido de
Jesus diante desse homem cativo que o mal mantém acorrentado, e que representa
todo um povo e, talvez, o mundo todo, é ao mesmo tempo o eco da dor dos homens
e da dor de Deus. Jesus parece estar naquela viragem de sua existência e de seu
ministério em que ele acaba de descobrir que a paixão dos homens e a paixão de
Deus se encontram e se unem em sua própria pessoa para conduzi-lo até a cruz.”
Não
creio exagerar se entendo que, para Jesus, curar dói. Ele não se diverte nem se
exibe como um curandeiro popular, mas se compromete organicamente com os
enfermos que cruzam seu caminho. Em mais de uma passagem, os evangelistas
anotam em Jesus um movimento visceral ao curar um doente, um “frio na barriga”,
como em passagens com a forma verbal “esplagnísthe”
(cf. Mt 14,14; Mc 6,34, passim) ou ainda
em Jo 11,38, logo antes de chamar Lázaro de volta à vida, quando Jesus “vibra
como uma lâmina de metal” (cf. gr. embrinómenos).
Ninguém
se admire, pois, de que assumir a missão de Jesus traga sofrimentos. O pastor
geme com suas ovelhas...
Orai sem cessar: “É eterna a misericórdia do Senhor!” (Sl 103,17)
Texto de Antônio Carlos Santini,
da Comunidade Católica Nova Aliança.
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