14/10/2015 – Fardos insuportáveis... (Lc 11,42-46)
Curiosamente,
muita gente tem a respeito do Evangelho a falsa noção de que ele nos tira a
liberdade e onera a nossa existência. Pois nesta passagem, em áspero confronto
com fariseus e doutores da lei, Jesus de Nazaré recrimina estes últimos
exatamente por sobrecarregarem o povo com “fardos insuportáveis” (cf. v. 46).
É o mesmo
Jesus que nos convida a tomar sobre nossos ombros o jugo dele, “pois meu jugo é
suave e meu fardo é leve” (Mt 11,30). Certamente, ele se refere à experiência
de amar e ser amado, quando qualquer sacrifício se torna leve e todo esforço
tem um sentido.
Ah! Quantos
fardos têm sido impostos ao cristão em nome de um Evangelho no mínimo duvidoso!
O fardo de um cristianismo revolucionário, cujo objetivo seria tomar o poder
dos césares deste mundo e entregá-lo ao povo (que, é claro, seria o novo
dominador). O fardo de um cristianismo dogmático, onde os hereges deveriam ser
odiados e perseguidos. O fardo de um cristianismo atlético, onde cada fiel
exercitaria a musculatura das virtudes, contando exclusivamente com seu suor, esforço
e boa vontade.
Em todos
estes casos, fica na sombra o essencial da vida cristã: a Graça! Todo bem é
graça. Tudo nos vem do Pai, “de quem desce todo dom precioso e toda dádiva
perfeita” (cf. Tg 1,17). A velha imagem da vida cristã como uma escada que se
deve galgar, degrau por degrau, até conquistar as altitudes olímpicas, ignora
que o Verbo desceu até nós e assumiu a nossa carne. Doravante, é por uma via
descendente que chegaremos a Deus, que veio ocupar o último lugar.
É verdade
que também o mundo pagão sobrecarrega seus adoradores com fardos igualmente
pesados: a obrigação de ser o primeiro, a imposição de “vencer na vida”, o
impulso para passar no vestibular, a necessidade de estar na moda, a compulsão
de lucrar, de vender mais, de superar a marca anterior, bater os recordes. Em
suma, a proibição de ser eu mesmo...
O pior é
quando as Igrejas ditas cristãs assumem os mesmos critérios do mundo pagão,
preocupadas com sua imagem, consagradas ao marketing
religioso, devotadas a crescer em número de fiéis e derrotar as demais Igrejas.
E Jesus a
insistir com doçura: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração”...
(Mt 11,29).
Orai sem cessar: “Mostra-nos o Pai, e isto nos
basta, Senhor!” (Jo 14,8)
Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova
Aliança.
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