Onde estão os nove? (Lc 17,11-19)
Em apenas nove
versículos, um amplo panorama sobre a realidade humana! Na porta da aldeia de
fronteira, dez leprosos marginalizados, definitivamente impedidos de participar
da vida social. Como tantos marginais de nosso tempo...
Vendo a
passagem de Jesus, cuja fama de terapeuta há havia chegado até eles, clamam de
longe, mas não ousam se aproximar. Como tantos infelizes de nosso século...
Tomados de
doença incurável naquela época, os dez leprosos não têm a quem recorrer. Como
tantos enfermos do Brasil, aos quais os serviços de saúde se declaram sem
condições de ajudar...
Necessidade e
indiferença... Doença e marginalização... A quem recorrerá o pobre? Neste
Evangelho, os pobres leprosos recorrem a Jesus, à espera da esmola da saúde. O
verbo que eles utilizam [eleéson] é
da mesma família que a palavra “esmola” [eleemosýne],
associada ao termo “misericórdia”, inseparável, em grego, do substantivo eláion, o azeite – exatamente o óleo de
oliva utilizado para amenizar as feridas da carne humana.
Não pedem
justiça. Não pedem um acerto de contas. Não alegam nenhum mérito pessoal.
Apenas clamam por compaixão. Esta é a condição da realidade humana: a miséria.
Aquela miséria que faz cócegas na misericórdia e puxa o gatilho do dom...
A reação de
Jesus não parece muito emocionada. Antes, alguém diria que foi algo
burocrática, pois apenas os enviou aos sacerdotes do Tempo, legalmente
encarregados de examinar uma pessoa e declarar sua pureza ritual (no caso de um
leproso, um atestado de saúde).
Eles obedecem. E
nós, modernos, já nos espantamos com sua prontidão. O que os move? Fé?
Esperança? Apostam na última tábua de salvação? Não importa. Eles se põem a
caminho e logo se percebem curados, sem as marcas de seu mal. Que fazer agora?
Ora, curado, vou cuidar da vida. Há trabalhos a fazer. Uma família a recuperar.
Novas expectativas. Assim fazem os nove judeus.
Um deles, o
único samaritano, faz diferente. Refaz o caminho e volta a Jesus, prostrando-se
a seus pés, neste gesto que só se realiza diante de Deus.
E Jesus a
perguntar: “Onde estão os outros nove?” Pois além da fé e da esperança, quanto
bem nos faria a gratidão!...
Orai sem
cessar: “Cantai ao Senhor um cântico de gratidão!” (Sl 147,7)
Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova
Aliança.

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