A voz que clama no deserto... (Lc 3,1-6)
Cresce cada vez mais a impressão de que o mundo vai mal. Na linguagem
profética de Isaías, há caminhos a serem endireitados, barreiras para rebaixar,
montanhas para aplanar. Os mais pessimistas chegam a dizer que a situação não
tem mais conserto...
Esta
é opinião de quem vive no burburinho da cidade, entre buzinas e sirenes,
mergulhado no redemoinho da TV e da Internet. Já aqueles que experimentam a paz
e o silêncio do deser to - como João Batista – regressam de lá com a visão de
que tudo pode ser refeito, renovado, restaurado. Mas isto exige uma conversão
pessoal.
Não
se trata de uma ação humana, derivada apenas do esforço ou do heroísmo, mas de
um dom a receber: “e todos verão a salvação que vem de Deus” (Lc 3,6). Natural,
acolher esta “salvação” implica abandonar os ídolos que fabricam a infeliz
multidão de escravos que vivem mal e, de quebra, envenenam o próprio planeta.
João
Batista, interrogado pelos fariseus, definiu a si mesmo como uma “voz que clama
no deserto”. Hoje, muitos pais e educadores se sentem exatamente assim: vozes
que parecem ressoar em vão, sem que ninguém ouça. No entanto, Jesus ensinou a
importância de insistir na Palavra semeada, com a esperança de encontrar um
terreno acolhedor, condição para a colheita abundante.
A
exemplo de João Batista, uma voz profética aposta na esperança de um mundo
novo, uma sociedade fraterna, um Reino de amor, sem, no entanto, abrir mão da
denúncia do mal infiltrado profundamente no tecido da humanidade, em especial
entre os poderosos deste mundo.
Talvez
devamos inverter as coisas e “ler” a mensagem por outro ângulo. Não temer o
deserto. Ao contrário, fabricar o deserto, isto é, “despovoar” a própria vida
de todo o entulho que a torna opaca ao sopro do Espírito. Uma vez instaurado o
deserto, logo virá o Vento divino com suas inspirações, sua onda curativa que
renova o ser a partir do interior.
Preparar...
endireitar... aterrar... rebaixar... aplanar... Eis todo um programa de vida
anunciado por Isaías e experimentado por João. Ainda que o mundo trabalhe em
sentido contrário. Fica o convite: buscar o deserto e, ali, encontrar o
essencial...
Orai sem
cessar: “O Senhor
guiou seu povo no deserto...” (Sl 136,16)
Texto de
Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

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