Trouxeram
pedras... (Jo
10,31-42)
Um dia, na solidão do deserto, Jesus
teve fome e foi tentado pelo demônio, que lhe sugeriu transformar pedras em pães
(Mt 4,3). Era uma proposta direta para que assumisse o seu destino em suas
próprias mãos, como se o Pai não cuidasse pessoalmente das necessidades do
Filho. Outra vez, na montanha, ensinando a multidão, Jesus perguntou se, entre
eles, um pai seria tão mau que chegasse a dar pedras ao filho que pedisse pão
(Mt 7,9).
É áspero este contraste entre a
pedra e o pão. A pedra é dura, fria, inorgânica. O pão é macio, quente,
orgânico. Ela nasce da erupção violenta dos vulcões. Ele é carinhosamente
amassado pela mãe de família. A pedra serve até para matar. O pão, ao contrário,
garante a vida do homem.
Neste Evangelho, Jesus ensina no
Templo, junto ao pórtico de Salomão. E quando o Filho de Deus chama a Deus de
Pai, afirmando sua unidade com Ele, os judeus foram buscar pedras para o
apedrejar, como punição contra um blasfemador. Logo Jesus, que lhes dava o Pão
da Palavra, ser ferido com pedras até a morte?!
Terrível capacidade humana de pagar
o bem com o mal! Profunda cegueira que rejeita o dom oferecido por Deus! Esta
reação se repetiria: tentaram matar Jesus na sinagoga de Nazaré, ao anunciar o
“ano da graça” do Senhor (Lc 4,14ss). Ou quando perdoou os pecados ao
paralítico (Mt 9,1-8). E ainda quando chamou Lázaro de volta à vida (Jo 11,53).
A crucifixão no Calvário foi apenas a última cena de um drama que os homens
daquele tempo prepararam com ódio e rancor.
Ao longo da História humana, geração
após geração, os discípulos de Jesus sempre enfrentaram o mesmo ódio e a mesma
violência. A semelhança entre o Mestre e seus seguidores fiéis é tão extrema,
que Estêvão, o primeiro dos mártires cristãos, foi morto com pedras (cf. At
7,58). E os apóstolos Pedro e André acabariam crucificados como Jesus. Na
verdade, o martírio vem exatamente atestar que o discípulo foi fiel a seu
Mestre. Aliás, “mártir” significa precisamente “testemunha”.
A Igreja ainda padece perseguição.
Se o homem é explorado e ferido, a Igreja o defende e sofre violência. Ela foi
torturada no Coliseu romano, nos jardins do Imperador e nas minas de metal.
Todos os totalitarismos odiaram Roma, como o nazismo de Hitler e o comunismo de
Stálin. Ainda hoje, os cristãos são martirizados entre comunistas, com os
bispos chineses presos e torturados, ou entre muçulmanos, cujos ativistas
degolaram os monges de Tbhirine, no Monte Atlas (Argélia).
Que temos nós para Jesus e sua
Igreja? Também jogaremos pedras?
Orai sem cessar: “A pedra que os pedreiros rejeitaram tornou-se a
pedra angular.” (Sl 118,22)
Texto
de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.
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