Onde compraremos pães para que eles
comam? (Jo 6,1-15)
O
povo que cerca Jesus tem uma história. Seus antepassados já haviam cruzado o
deserto por 40 anos (cf. Êxodo). Ali mesmo, passaram fome e foram saciados com
um “pão” que eles não haviam plantado e colhido: o maná, o “pão do céu” que
Deus forneceu (cf. Ex 16) até que chegassem à Terra Prometida e tivessem a
primeira colheita (cf. Js 5,12).
É
chegado o momento de receber um novo dom. O pão multiplicado por Jesus apenas
aponta para esse dom inesperado, que o povo da Nova Aliança irá receber e
partilhar em cada Eucaristia.
Por
enquanto, porém, é preciso reconhecer a própria insuficiência, a própria
incapacidade de sobreviver às custas de nossos próprios recursos, das técnicas
desenvolvidas e mesmo do potencial da natureza criada. Enfim, nós somos
dependentes. Esta consciência nos abre para os dons “do alto”.
Eis
a reflexão de Christian Chessel, um dos quatro Padres Brancos de Tisi Ouzou,
Argélia, assassinados por terroristas islâmicos em 1994: “Aceitar nossa impotência
e nossa pobreza radical é um convite, um chamado premente a criar com os outros
relações de não-poder. Ao reconhecer minha fraqueza, eu posso aceitar a dos
outros e ver nisso um apelo a sustentá-la, a fazê-la minha, à imitação de
Cristo. A fraqueza do apóstolo é como a de Cristo, enraizado na força da Páscoa
e na força do Espírito. Ela não é passividade nem resignação, ela supõe muita
coragem e impele a comprometer-se pela justiça e pela verdade, denunciando a
ilusória sedução da força e do poder”.
Aí
está: somos fracos e limitados. A multidão tem fome. Não temos pão. Sem uma
abertura para o alto, isto é, sem contar com a intervenção de Deus, nosso Pai,
jamais mataremos a fome de nossos irmãos. Jamais teremos a coragem de nos
arriscar por eles, mas ficaremos paralisados na contemplação da miséria humana.
Jesus
tomou o pão em suas mãos, “deu graças” e distribuiu à multidão, que comeu,
ficou saciada e deixou sobras. Dar graças significa reconhecer que podemos ter
pão do céu. Mas sempre será um risco comer o pão dos irmãos e deixar que passem
fome...
Orai sem cessar: “Senhor,
dá-nos sempre deste pão!” (Jo 6,34)
Texto de Antônio Carlos Santini,
da Comunidade Católica Nova Aliança.
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