Se meu Pai não o atrair... (Jo
6,44-51)
Nosso
Deus é um grande sedutor. Ele não se contenta em chamar, mas atrai, seduz,
magnetiza até o ponto de a pessoa sentir-se torturada em sua resistência ao
amoroso abraço do Pai. Santo Agostinho foi exemplar ao descrever essa espécie
de “saudade de Deus” que envolve o coração humano.
Neste
Evangelho, repete-se o “jogo de gato e rato” entre Jesus e seus ouvintes. Tal
como no tempo do Êxodo (cf. Ex 15 a 17), os judeus do tempo de Jesus também se
entregam às murmurações. Tal como em português, o verbo grego empregado pelo
evangelista João também soa como onomatopeia: gogguyzo. O Mestre ensina, esclarece, dá sinais, mas eles estão
obstinados à aparência das coisas, sem lhes penetrar o sentido profundo: “Não é
ele o filho de José? Como ele diz que desceu dos céus” E permanecem longe de
reconhecer o Filho de Deus...
E
Jesus explica o impasse: “Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o
atrai”. André Scrima comenta a passagem: “A fé em Jesus não é somente uma obra não
humana, mas ela acontece em decorrência da atração do Pai. Tal é o agir do Pai:
atrair os homens para o Filho encarnado no mundo. A única verdadeira via para
ir a Jesus é aquela que acontece pelo agir sobrenatural do Pai. Está escrito
nos profetas: ‘todos os teus filhos serão instruídos por Deus’. (Is 54,13)”
“A
aliança que Deus concluiu com o povo eleito – prossegue Scrima – tem por
finalidade fazê-lo acessar outra aliança, superior, uma aliança nova e
completa, na qual ‘cada um não instruirá mais o seu vizinho ou seu irmão,
dizendo: Conhece o Senhor!’ De fato, todos me conhecerão’ (Jr 31,31-34); e esta
obra será Aquele que Deus enviará e dele nascerá. Ora, apesar desta obra que se
completa com a vinda de Jesus até eles, os judeus não o quiseram receber
diretamente de Deus, mas pela interposição dos profetas e dos rabinos
instruídos.”
Como
explicara a incredulidade dos contemporâneos de Jesus? Apesar de todos os
sinais, eles não conseguem admitir a origem divina de Jesus, pois esta é objeto
da fé concedida pelo Pai, e não brota da simples visão humana. Como observa
Louis Bouyer, “o movimento que leva o homem para Cristo, como aquele que
impeliu o Filho a se encarnar para ir ao homem, é operado pelo Pai. É pelo
próprio ensinamento que o Pai dá aos homens que estes são conduzidos a seu
Filho”.
Maravilhosa
operação da Trindade que ama o homem e quer salvá-lo. Quando veio o Espírito de
Pentecostes, os apóstolos penetraram neste mistério (cf. Cl 1,26).
Orai sem cessar: “Eu os
atraía com laços de amor...” (Os 11,4)
Texto de Antônio Carlos Santini,
da Comunidade Católica Nova Aliança.
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