Carvões em brasa... (Jo 21,1-14)
Mas
não estes homens a quem Jesus tinha mudado de pescadores de peixes em
pescadores de homens? (Cf. Lc 5,10) Então, por que este impulso de voltar ao
passado, como se sua experiência com Jesus fosse apagada com o drama do
Calvário?
Algo
me diz que eles ficaram frios com a morte de seu Mestre. Selada a pedra,
deposto o cadáver, também eles morreram um pouco. Apagara-se o ardor que
chegava ao ponto de se disporem a morrer por Ele (cf. Mt 26,35)...
Quando
o dia amanhece, as redes vazias, um desconhecido na margem do lago indica o
lugar onde se escondia o grande cardume, e eles pescaram 153 grandes peixes.
Agora, os pescadores desiludidos já sabem que se trata do Senhor, que os
convida a comer. Quando descem para a areia, os discípulos percebem que Jesus
já tinha preparado uma fogueira, um fogo de brasa [no texto grego, anthrakian, carvões em brasa].
Precisa
ser mais claro? Nós somos frios. Desanimamos fácil. Temos preguiça de insistir,
persistir, resistir. Somos de fato carvões apagados. Somente na presença de
Jesus o nosso coração voltará a arder e então seremos capazes de responder à
tríplice pergunta: - “Tu me amas?”
Não
era a primeira vez que Simão Pedro se encontrava diante de carvões em brasa. No
jardim do Sumo Sacerdote, na noite fria da prisão de Jesus, o velho pescador
também se aquecia junto à fogueira, junto aos servos e aos guardas (cf. Jo
18,18). É a mesma palavra grega: antrakian.
O mesmo fogo de brasa. E ali ele negara três vezes o seu Mestre. Mas o Senhor
sempre nos dá uma nova oportunidade. Jesus sempre acenderá uma fogueira nova,
um novo ânimo, um novo batismo de fogo.
Agora,
na praia fria, Pedro encontra nova fogueira previamente preparada e, nela, um
peixe que ele mesmo não tinha pescado. Os cristãos primitivos identificaram a
figura do peixe com a Eucaristia – isto se vê nas catacumbas, nos templos
antigos. É nesta refeição “com Jesus” que o peixe e o pão (cf. Jo 21,9)
revigoram nossas forças e socorrem nossa fraqueza.
-
“Venham comer!” – convida o Senhor. Não se trata de um preceito a cumprir. Não
se trata de mera “cerimônia”. Ao contrário! Jesus nos chama a nos aproximarmos
“sem cerimônia” para comer do peixe e do pão aquecidos pelas brasas. É com esse
fogo – somente com ele – que iremos abrasar de novo o mundo e a Igreja.
Orai sem cessar: “Diante do
Senhor caminha o fogo...” (Sl 97,3)
Texto de Antônio Carlos Santini,
da Comunidade Católica Nova Aliança.

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