Eu sou a videira... (Jo 15,1-8)
Ao
transmitir esta alegoria a seus discípulos, possivelmente Jesus tivesse em
mente o frontão do Templo de Jerusalém, onde se erguia na época o símbolo de
Israel: uma videira de ouro. Aliás, no Antigo Testamento, acha-se o mesmo
símbolo para designar o Povo Escolhido. Em Isaías 5, o “Cântico da Videira”
registra a decepção do Senhor por não encontrar frutos na vinha em que ele investira
suas esperanças...
Aqui,
Jesus deixa claro que ele, sim, é o verdadeiro Israel, nele está sintetizado o
“Povo de Deus”. E só participam desse povo aqueles ramos que nele estão
enxertados. Quem se deixa amputar desse Tronco perde a “seiva” do Espírito
Santo, perde o contato com a Fonte de Vida para murchar, secar e ir ao fogo.
Os
iconógrafos do Oriente, evidentemente inspirados pelo apóstolo Paulo, viram
nesta alegoria uma imagem da Igreja, onde Cristo é o tronco e nós somos os
ramos. De fato, estamos diante de um mistério de “comunhão” [koinonia]. Mantendo uma “vida comum” com
Cristo, nós somos Igreja. Fica, pois, evidente a necessidade de uma simbiose
com Cristo, uma participação em sua vida, sempre renovada pelo contato permanente
com sua Palavra e seus Sacramentos.
Natural,
esta simbiose proporciona o surgimento de frutos, um deles em especial: “o
fruto da unidade orgânica de Cristo e dos seus, sua união no amor” (L. Bouyer)
E uma virtude se destaca como sinal dessa pertença ao Tronco: a obediência,
marca essencial da dependência humana em relação a Deus.
Vale
acrescentar que Jesus não escolheria ao acaso esta imagem da videira para falar
de si mesmo. A vinha supõe a ideia de plantação que exige cuidados. Além disso,
a vinha produz o vinho, imagem do sangue derramado por nossa salvação. Ainda
que veladamente, Jesus antecipa seu sacrifício.
O mesmo vinho
inebria, inflama, aquece os corações, afastando a frieza que entorpece e
paralisa o homem. Alusão à ação do Espírito Santo, sem o qual a Igreja iria
estagnar-se, incapaz de anunciar a Boa Nova, incapaz de dar frutos de salvação.
Orai sem cessar: “Graças mim
é que produzes fruto!” (Os 14,8b)
Texto de Antônio Carlos Santini, da
Comunidade Católica Nova Aliança.

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