E terás um tesouro... (Mc 10,17-27)
Este Evangelho é
rico de sugestões. Narra o encontro de um jovem bom, cumpridor da Lei. Ele deve
ter ouvido a pregação de Jesus e alguma coisa se moveu em suas entranhas. É
provável que nem mesmo ele soubesse por quê, mas ei-lo de joelhos, prostrado ao
solo diante do Mestre. Diante do único que é bom...
Sendo um jovem
rico, havia crescido na abundância e herdara os bens da família. Todo mundo
sabe que não são “coisas” assim – terras, casas, rebanhos... – o que pode
preencher o coração do homem. Natural que uma impressão de vazio interior o
rondasse aqui e ali.
Naquele dia,
juntou-se à multidão que acompanhava o Rabi da Galileia. Ouviu suas palavras
entre o encantamento e o espanto. De quê teria falado o Mestre? Ouso adivinhar:
lembrou as aves do céu, que não semeiam nem colhem, mas são alimentadas pelo
Pai celeste... E os lírios do campo, cujo manto de ouro excede em muito as
túnicas de Salomão... Teria comentado, ainda, que o Filho do Homem não tinha
uma pedra, ao menos, para descansar a cabeça... Coisas assim, novidade absoluta
para o jovem inquieto...
Quando o jovem
conversou com Jesus, logo após ter declarado com candura que observava toda a
Lei, cumpria todos os mandamentos, aconteceu algo inesperado: Jesus olhou para
ele e viu que era amável. Olhou-o com amor.
E foi por amar o
jovem que Jesus decidiu exigir dele muito mais que a Lei seca do Sinai. Em seu
olhar de amor, que vai ao âmago da alma, Jesus percebeu que o jovem ainda não
estava pleno. E disse: “uma coisa te falta...”
O jovem pode ter
pensado: “Alguma coisa me falta? Mas eu tenho tudo!” E Jesus: “Vai. Vende tudo.
Dá aos pobres. Depois, vem e segue-me!” E o jovem rico ficou triste.
Triste, não por
ter de deixar seus bens. Triste, ao descobrir, inesperadamente, que não era tão
bom quanto pensava. Triste, ao perceber, pela primeira vez, que seu coração
estava preso.
Afastou-se o
jovem, diz o Evangelho. Mas não disse por quanto tempo... Eu não ficaria
admirado se o bom rapaz estivesse entre os 120, na manhã de Pentecostes, depois
de ter distribuído seus bens e, livre e leve, passado a seguir aquele Rabi de
olhos profundos, cujo amor vale mais que todos os tesouros...
Orai sem cessar: “Onde está o teu tesouro, aí está o
teu coração.” (Mt 6,21)
Texto de Antônio Carlos Santini, da
Comunidade Católica Nova Aliança.
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