Um Evangelho que devia
espantar o leitor! A começar do fato de que o evangelista tenha registrado um
“fracasso” de Jesus. Os biógrafos de um herói, de um grande vulto da História,
tratam de dar ênfase às realizações e conquistas do personagem escolhido. Por
outro lado, ocultam bem suas falhas ou, no mínimo, tratam de “dourar a pílula”
para não lhe estragar a imagem.
Aqui, não. Neste
Evangelho, São Mateus declara, com todas as letras, que Jesus não pôde fazer
muitos prodígios em sua terra natal. Em outras terras, ele limpara o leproso,
expulsara demônios, acalmara a tempestade. Em Nazaré, veem nele apenas o “filho
do carpinteiro”. A objetividade racionalista de seus conterrâneos ata as mãos
do Senhor.
Temos aqui uma lição.
Deus, que é onipotente, não costuma invadir nossas vidas com demonstrações
gratuitas de poder. Ele conta com nossa cooperação. Ele aguarda de nossa parte
algum tipo de abertura para sua intervenção. Tanto que, antes de realizar
certas curas, Jesus perguntava ao cego, ou ao surdo ou ao paralítico: “Que
queres que eu te faça?” Aos dois cegos, ele pergunta: “Credes que eu posso
fazer isto?” (Mt 9,28) E antes de ressuscitar a filha de Jairo, diz ao Pai: “Não
temas, crê somente.” (Lc 8,50)
Quando lemos a vida
dos santos, dos fundadores de Institutos religiosos, dos missionários,
assombra-nos a imprudente ousadia de todos eles quando se lançam a empresas
humanamente utópicas, sem contar com recursos materiais nem apoio humano, mas
tão somente com a certeza de que a obra era de Deus e, por isso mesmo, sua
Graça não lhes faltaria jamais.
E mais: com raríssimas
exceções, as iniciativas desses homens de Deus enfrentaram todo tipo de obstáculo
e oposição: ciúmes, calúnias e denúncias, campanhas de difamação e traições
internas. E lá vão esses maravilhosos servos de Deus, sempre adiante, enquanto
o Senhor faz em suas vidas os milagres que não faz nas nossas... Também nós
recebemos de Deus tarefas e missões que jamais conseguiremos realizar com
nossas próprias forças. Construir uma família, educar os filhos no bem, atuar positivamente
para a transformação da sociedade...
E Jesus, desejoso de
fazer o impossível em nossa vida, vem perguntar: “Você crê que eu posso fazer
isso?”
Orai sem cessar: “Tudo é possível ao que
crê!” (Mc 9,23)
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