Este
é meu Filho, o Amado...
(Mc 9,2-10)
Nos evangelhos sinóticos, estão
registradas duas teofanias em que o Filho é identificado diretamente pelo Pai:
o episódio do batismo de Jesus (cf. Mc 1,9-11) e a transfiguração no alto da
montanha que a tradição identificou como o Monte Tabor (cf. Mc 9,2-10).
Em ambas as passagens, faz-se ouvir
do alto a voz do Pai: “Este é meu Filho, o Amado”. No texto grego, “o amado” [ho agapetos] é um aposto de “filho”.
Mais que um simples adjetivo, pode ser tomado como um “nome” do Filho: ele é “o
amado do Pai”. Isto se confirma na Carta aos Efésios (1,6), quando Paulo
escreve que o Pai “nos agraciou em seu Amado” (en toi egapemenoi). Isto é, o Pai nos ama na pessoa de seu Filho,
na medida em que nos identificamos com ele, com quem fomos configurados no
batismo cristão.
Ora, esta “identificação” ocorre
através da Palavra do Filho, daí a exortação da mesma voz do Tabor: “Ouvi-o!”
Se o Pai nos fala por seu Filho, e nós acolhemos sua Palavra, então o amor do
Pai flui para nós. Se, ao contrário, ficamos surdos à mesma Palavra,
interrompemos o canal amoroso que estava à nossa disposição.
Na teofania do batismo no Jordão, um
jato de luz é lançado sobre toda a primeira parte do Evangelho de Marcos,
culminando com a declaração de Pedro: “Tu és o Messias!” (Mc 8,29) Agora, na
teofania do Tabor, a luz divina vem iluminar a segunda parte, marcada pelos
anúncios da Paixão e morte de Jesus, preparando terreno para a proclamação do
“filho de Deus” feita pelo centurião romano (cf. Mc 15,39) e para a descoberta
da ressurreição (cf. Mc 16,1-8).
Na 1ª Carta de João, a palavra
habitualmente traduzida por “caríssimos”, é o mesmo termo grego [agapetoi] no sentido de “amados”. Isto
permite a leitura: “Amados, agora somos as crianças [tekna / filhos] de Deus”, sugerindo que fomos adotados como filhos
em razão do amor derramado sobre nós, pelo Pai, na pessoa de Jesus.
Graças à Eucaristia, o sacramento do
amor, os católicos dispõem de mais um canal de identificação com o Filho, ao
serem alimentados pelo Corpo e Sangue de Jesus, em autêntica simbiose. Por isso
mesmo, a mesa eucarística é o ponto de encontro entre o Amado e os amados do
Pai, profundamente mergulhados no rio de amor que brota do coração do Pai.
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