PALAVRA DE VIDA
Três tendas... (Mt 17, 1-9)
Enquanto escrevo esta reflexão, tenho diante dos olhos o ícone da Transfiguração. No alto da montanha inteiramente inundada pela Luz divina, revestido de inigualável alvura, envolvido por círculos concêntricos em matizes de azul, o Cristo Senhor.
No dia-a-dia da planície, da oficina de Nazaré às esquinas de Cafarnaum, os homens viam apenas o “filho do carpinteiro”. Agora, não! Tendo a seu lado por testemunhas Moisés (a antiga Lei) e Elias (a profecia da Primeira Aliança), o que se pode ver é o próprio Filho de Deus. Nem precisaríamos da voz que desce da nuvem a identificá-lo – como já o fizera em seu batismo no Jordão: “Eis o meu Filho muito amado... Ouvi-o!”
Na base do ícone, prostrados por terra, vencidos pelo temor (Mt 17, 6) ou pelo sono (Lc 9, 32), vejo Pedro, Tiago e João. Que será que eles temem? Por que preferem dormir?
Certamente o sono será mais cômodo que ouvir a conversa entre Jesus, Moisés e Elias, pois falam exatamente sobre “a morte de Jesus” (cf. Lc 9, 31). Ora, esta experiência de testemunhas oculares da glória do Tabor deveria servir-lhes de vacina para a próxima experiência da outra montanha: o Calvário. Mas eles dormem...
No final, Pedro sugere que permaneçam lá no alto, onde armaria três tendas para os três personagens. E a palavra “tenda” não pode deixar de ser associada ao Prólogo do Evangelho de João (cf. Jo 1, 14), onde lemos que o Verbo “fez sua tenda” [eskénosen], “acampou entre nós”.
Menos mal que as tendas são a morada dos nômades, dos pastores que se deslocam permanentemente em busca do pasto para seus rebanhos. O próprio Paulo – fabricante de tendas! – nos lembraria que não temos, aqui na terra, morada permanente, mas habitamos apenas tendas provisórias (2Cor 5, 1-2).
Por tudo isso, a sugestão de Simão Pedro não foi acolhida. Após a glória do Tabor, é preciso descer ao encontro dos homens, atravessar a penumbra de suas cidades, anunciar a Boa Nova. E enquanto perdura esta missão, não teremos o luxo de descansar na montanha luminosa.
Sem esquecer, todavia, que a boa notícia que temos a dar passa necessariamente pela cruz...
Orai sem cessar: “O Senhor é minha luz e minha salvação!” (Sl 27, 1)
Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.
Nenhum comentário:
Postar um comentário