Caíram
em terra boa... (Mc 4,1-20)
Nas
parábolas, Jesus sempre recorre a imagens e situações da vida do povo. É assim
que ele nos fala da mulher que amassa o pão, o pescador que lança as redes, a
lamparina de azeite que fumega, mas ainda tem vida... Hoje, o Rabi da Galileia
mostra terras e sementes. Como ele mesmo interpreta (cf. Mc 4,13ss), a semente
é a Palavra de Deus. A terra (e existem vários tipos diferentes!) é o coração
humano. Como é bonito, da parte de Deus, ver nosso coração como um terreno ao
qual ele confia o precioso tesouro de sua Palavra, que ali deve germinar,
crescer e frutificar.
Em
um conhecido sermão sobre a Palavra de Deus, o Pe. Antonio Vieira, em pleno
Brasil Colônia, já demonstrava que a semente divina não falha nunca, o que pode
impedir sua germinação é o tipo de terreno que a acolhe ou a rejeita. Mais
recentemente, em sua mensagem para o Dia Mundial das Comunicações
Sociais de 2012, com o tema “Silêncio
e palavra: caminho de evangelização”, o Papa Bento XVI chamava nossa atenção para
o silêncio como condição necessária para acolher a semeadura do Senhor.
“Quando palavra e silêncio se excluem
mutuamente, a comunicação deteriora-se, porque provoca certo aturdimento ou, no
caso contrário, cria um clima de indiferença; quando, porém se integram
reciprocamente, a comunicação ganha valor e significado.”
Esta
reflexão nos coloca diante de um traço marcante da sociedade atual: a expansão
ilimitada do ruído e da agitação, paralelamente à falta de espaços (dentro e
fora do homem) para a semeadura e a germinação da Palavra de Deus.
O
Papa comenta: “Se Deus
fala ao homem mesmo no silêncio, também o homem descobre no silêncio a
possibilidade de falar com Deus e de Deus. Temos necessidade daquele silêncio
que se torna contemplação, que nos faz entrar no silêncio de Deus e assim
chegar ao ponto onde nasce a Palavra, a Palavra redentora. Quando falamos da
grandeza de Deus, a nossa linguagem revela-se sempre inadequada e, deste modo,
abre-se o espaço da contemplação silenciosa. Desta contemplação nasce, em toda
a sua força interior, a urgência da missão, a necessidade imperiosa de ‘anunciar
o que vimos e ouvimos’, a fim de que todos estejam em comunhão com Deus (cf. 1Jo
1,3). A contemplação silenciosa faz-nos mergulhar na fonte do Amor, que nos
guia ao encontro do nosso próximo, para sentirmos o seu sofrimento e lhe
oferecermos a luz de Cristo, a sua Mensagem de vida, o seu dom de amor total
que salva”.
É
assim que, em nossos dias, o ruído em altos decibéis e a agitação da vida
urbana representam de modo concreto os espinhos e os pedregulhos da parábola,
que impedem em nosso interior a floração e a frutificação da Palavra de Deus.
Ah!
Se disséssemos como o jovem Samuel: “Fala, Senhor, que o teu servo escuta!”
Orai sem cessar: “E nossa terra produzirá seu fruto...” (Sl 85,13)
Texto de Antônio Carlos Santini,
da Comunidade Católica Nova Aliança.
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