Não há nada oculto... (Mc 4,21-25)
Sim, nada
permanece oculto aos olhos de Deus, que tudo vê. O estulto tenta enganar-se: “O
Deus de Jacó nada sabe!” (Sl 94,7.) O sábio reconhece em seu íntimo o olhar de
Deus: “Senhor, te me perscrutas e me conheces... Uma palavra ainda não aflorou
em minha língua, / e tu já a conheces.” (Sl 139,1.4.)
Viver sob o
olhar de Deus é viver na verdade. O outro caminho é uma vida de mentiras e
ilusões. Um faz-de-conta que sempre acaba mal. O esforço para mascarar a
própria culpa vai superpondo, ao longo dos dias, uma série de disfarces que, ao
final, nos impedem de identificar nossa verdadeira pessoa. No começo do baile
de máscaras, perguntamos: “Adivinha quem sou?” Ao fim da festa, inutilmente eu
me pergunto: “Quem sou eu?”
Mas a frase
de Jesus – “Nada há de oculto que não venha a ser descoberto” – não se refere
apenas ao olhar de Deus. Inclui também os olhos humanos. Exatamente nestes
dias, uma enxurrada de denúncias e revelações deu origem às CPIs que levaram à
sarjeta tantas reputações e carreiras políticas.
É claro que,
quando tais ilícitos foram cometidos, seus agentes contavam com a proteção do
silêncio, dos biombos do poder, das muralhas do sistema. No entanto, um fato
aparentemente ocasional (um vídeo gravado!) deflagrou todo o processo de
re-velação, que só agora, anos depois, vai chegando ao seu desfecho.
Aquele que
optou pela mentira carrega um fardo permanente que vai corroendo a sua alma.
Realiza um superesforço para manter na sombra aqueles crimes e pecados que, uma
vez expostos à luz, poderiam destruir sua família, sua carreira, sua reputação.
Independentemente de tais desastres, a própria consciência dói, reclama, acusa,
condena. Os profissionais da área psicológica sabem muito bem que não existe
nada mais destrutivo para o psiquismo humano que o sentimento de culpa. Um
romance como “Crime e Castigo”, de Dostoiévsky, retrata de modo
magistral essa terrível experiência.
Como o
Senhor nos ama e quer a nossa salvação, deixou nas mãos da Igreja um precioso
dom: o sacramento da Reconciliação, conhecido como “confissão”. Ali, o pecador
tem a oportunidade de manifestar seu arrependimento e contrição. Acusando-se de
seu pecado, trazendo à luz aquilo que ocultara nas sombras, o réu confesso abandona-se
à misericórdia do Pai e recebe das mãos do ministro ordenado o perdão radical
que brota do lado aberto de Cristo. Ao se erguer, vê-se livre do fardo que
arrastava, do verme que o corroía, da opressão que o dominava.
Já não precisa esperar pelo Juízo
Final para ver seu crime exposto aos olhos de todos. Pode, agora, olhar de novo
para o alto e dizer baixinho: “Meu Pai!”
Orai sem cessar: “Lava-me, e serei mais branco do que a neve!” (Sl 51,9)
Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova
Aliança.
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