Ele
desperta meus ouvidos... (Is 50,4-9a)
Estranho órgão o ouvido humano! Ele pode
ser surdo (Sl 58,4), mouco, endurecido (Is 6,10), incircunciso (Jr 6,10),
intencionalmente tapado (At 7,57)... O ouvido prova as palavras, como o paladar
prova a comida (Jó 34,3). Mas é pelo ouvido que vem a fé: fides ex auditu (Rm 10,17).
Quando
recebemos a fé? No Batismo cristão, de modo infuso. E um dos gestos batismais é
exatamente a repetição do gesto de Cristo que soprou nos ouvidos do surdo: “Ephphatha!
Éfata!” Abre-te! Há uma relação direta entre rito e realidade. Nascemos
com nossos ouvidos tapados para a Palavra da verdade. Sequelas da queda da
origem...
Agora, Isaías nos anuncia as palavras que
se aplicam ao Filho, aquele que acolhe sem reservas e sem condições a vontade
do Pai. Muito além de nossa lógica humana, Jesus Cristo é, simultaneamente, o
Verbo-Palavra eterna e, em sua natureza humana, o modelo perfeito de obediência
à mesma Palavra. Em Jesus Cristo, a Palavra deixa de ser mera representação
simbólica e convencional de pensamentos e conceitos: Jesus “É” a PALAVRA! O seu
ser, ontologicamente, é a PALAVRA DE DEUS.
Na humilde Nazaré, criança e adolescente,
Jesus terá ouvido muitas vezes a proclamação da Escritura, até mesmo da boca de
José ou de Maria. Na sinagoga judaica, cada sílaba da Torá era captada pelos
ouvidos de Jesus, ao perceber profundas ressonâncias no próprio coração. E à
medida que ouvia a Palavra de Deus, Jesus humano se reconhecia nela: “É isto
que eu quero. É isto que eu devo ser. É isto que EU SOU!” E assim, pouco a
pouco, dia a dia, Deus despertava seus ouvidos.
A exemplo de Jesus, o cristão é alguém
que mantém os ouvidos despertos. E se isto é graça, puro dom, é também fruto de
uma disciplina, uma ascese, que se exercita no tempo. Com o tempo, a Palavra se
torna “mais doce que o mel”, “luz em meu caminho”, “minha esperança”, “minha
alegria” e “imenso tesouro” (Sl 119,103.105.114.162). A verdadeira identidade
do cristão vem à tona no contato com a Palavra.
No silêncio
e nas vigílias noturnas, na contemplação dos acontecimentos e da obra criada
por Deus, abrem-se os nossos ouvidos para acolher a Palavra de vida eterna.
Orai sem cessar: “O zelo
de vossa casa me consome!” (Sl 69,10)
Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade
Católica Nova Aliança.
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