quarta-feira, 27 de março de 2013

PALAVRA DE VIDA


Ele desperta meus ouvidos... (Is 50,4-9a)
     Estranho órgão o ouvido humano! Ele pode ser surdo (Sl 58,4), mouco, endurecido (Is 6,10), incircunciso (Jr 6,10), intencionalmente tapado (At 7,57)... O ouvido prova as palavras, como o paladar prova a comida (Jó 34,3). Mas é pelo ouvido que vem a fé: fides ex auditu (Rm 10,17).
      Quando recebemos a fé? No Batismo cristão, de modo infuso. E um dos gestos batismais é exatamente a repetição do gesto de Cristo que soprou nos ouvidos do surdo: “Ephphatha! Éfata!” Abre-te! Há uma relação direta entre rito e realidade. Nascemos com nossos ouvidos tapados para a Palavra da verdade. Sequelas da queda da origem...
      Agora, Isaías nos anuncia as palavras que se aplicam ao Filho, aquele que acolhe sem reservas e sem condições a vontade do Pai. Muito além de nossa lógica humana, Jesus Cristo é, simultaneamente, o Verbo-Palavra eterna e, em sua natureza humana, o modelo perfeito de obediência à mesma Palavra. Em Jesus Cristo, a Palavra deixa de ser mera representação simbólica e convencional de pensamentos e conceitos: Jesus “É” a PALAVRA! O seu ser, ontologicamente, é a PALAVRA DE DEUS.
      Na humilde Nazaré, criança e adolescente, Jesus terá ouvido muitas vezes a proclamação da Escritura, até mesmo da boca de José ou de Maria. Na sinagoga judaica, cada sílaba da Torá era captada pelos ouvidos de Jesus, ao perceber profundas ressonâncias no próprio coração. E à medida que ouvia a Palavra de Deus, Jesus humano se reconhecia nela: “É isto que eu quero. É isto que eu devo ser. É isto que EU SOU!” E assim, pouco a pouco, dia a dia, Deus despertava seus ouvidos.
      A exemplo de Jesus, o cristão é alguém que mantém os ouvidos despertos. E se isto é graça, puro dom, é também fruto de uma disciplina, uma ascese, que se exercita no tempo. Com o tempo, a Palavra se torna “mais doce que o mel”, “luz em meu caminho”, “minha esperança”, “minha alegria” e “imenso tesouro” (Sl 119,103.105.114.162). A verdadeira identidade do cristão vem à tona no contato com a Palavra.
      No silêncio e nas vigílias noturnas, na contemplação dos acontecimentos e da obra criada por Deus, abrem-se os nossos ouvidos para acolher a Palavra de vida eterna.
Orai sem cessar: “O zelo de vossa casa me consome!” (Sl 69,10)
Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

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