sábado, 30 de março de 2013

PALAVRA DE VIDA


 Vós que estais sedentos... (Is 55,1-11)
      A belíssima Liturgia da Vigília Pascal confere à água o mais notável simbolismo. Já no canto do “Exultet”, diante do círio pascal, aparece o Mar Vermelho, onde as águas foram vida para Israel e morte para o Faraó. A leitura do Gênesis lembra que a Criação (inclusive a água) sai das mãos de Deus. O texto do Êxodo descreve com detalhes a passagem pelo mar, enquanto Ezequiel 36 traz a promessa do dom do Espírito: “Derramarei sobre vós águas puras” (v. 25). Enfim, a Carta aos Romanos (6,3-11) interpreta o batismo cristão como um “mergulho” na própria morte de Cristo.
      Mas fixemo-nos na passagem de Isaías 55, onde Deus nos convida a chegar até “as nascentes das águas”, a fonte primeira do Amor, onde tudo é graça, tudo é dom. Nada a ver com as gnoses, onde se pretendia conquistar a salvação como fruto de um “conhecimento” secreto e reservado a poucos. Nada a ver com alguma espécie de atletismo espiritual, onde só se salvam os super-homens...
      Ao contrário, o convite é dirigido a “todos que estais sedentos”: Deus conhece a sede do coração humano, a fome de nossa natureza, que nenhum alimento deste mundo pode saciar. E os alimentos dispostos no divino banquete – trigo, vinho e leite, alimentos típicos de uma sociedade que se fixou na terra e a cultivou – não custam nada. As locuções “sem dinheiro” e “sem pagar” acentuam o aspecto de dom gratuito, não merecido. Nada que possa lembrar uma conquista do esforço humano, mas pura delicadeza de um Deus que é Pai e alimenta seus filhos como as avezitas do céu o fazem com seus filhotes.
      O Deus da Aliança se apresenta ao povo como um Deus que alimenta. E parece estranhar nossa vã inclinação de gastar nossos bens na busca de alimentos que não saciam (v. 2). “Se me ouvis, comereis excelentes manjares”, diz o Senhor (v.2b). A condição para participar do banquete é uma atitude de escuta, que supõe a obediência e a união de corações. E o v. 10 fará nova alusão à água: desta vez, a chuva, como imagem da ação profunda da Palavra de Deus que, ouvida e acolhida, fertiliza o solo e o leva a frutificar com a germinação das sementes.
      Mais tarde, Jesus clamaria em alta voz, junto às arcadas do Templo de Jerusalém: “Quem tem sede, venha a mim e beba, e de seu íntimo jorrarão rios de água viva!” (Jo 7,37-38).
Orai sem cessar: “Eis o Deus que me salva!” (Sl 12,2)
Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

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