Tu sabes
que te amo... (Jo 21,1-19)
Esta é das passagens habitualmente
petrificadas por nossa incapacidade de traduzir... A maioria dos tradutores
ignora o essencial da mensagem. Por três vezes, Jesus pergunta a Pedro qual era
a qualidade do amor que alimentava pelo Mestre e Senhor. A insistência de Jesus
acaba por levar o velho pescador até o pranto. Mas o essencial da passagem
permanece na sombra...
O idioma grego tem diferentes verbos
para dizer “amar”, designando diferentes “amores”: eros (amor carnal,
mais instintivo), stergethron (amor parental), philia (amor de
amizade, ternura) e agápe (amor de adoração, de caridade). Ora, nas duas
primeiras vezes, ao perguntar se Pedro o amava, Jesus usa (no texto grego
original) o verbo agapáo (αγαπάω), mas Pedro responde com o verbo philéo
(φιλέω). Era como se Jesus perguntasse: “Tu me amas de amor?” E Pedro
respondesse: “Eu te amo de amizade”...
Ao traduzir para o latim, na
Vulgata, São Jerônimo foi absolutamente fiel ao texto original, tanto que usou
verbos diferentes na pergunta (diliges me? – com o verbo “dilígere”,
amor diligente, exigente) e na resposta (amo te – com o verbo “amare”,
que não tem aquela conotação de superação no amor).
Comenta o Pe. Spicq, OP: “A
distinção dos dois verbos foi notada desde Orígenes, que observa que o agápe
evoca algo mais divino e, por assim dizer, um amor espiritual, ao passo que phílein
[o verbo amar de amizade] é carnal e mais humano.” Para o mesmo autor,
traduzir os dois verbos com igualdade não corresponde à importância da cena.
Mas o mais importante está por vir:
na terceira vez, ao insistir na pergunta, Jesus mudou o verbo. Deixou de lado o
verbo mais exigente e usou exatamente o verbo que Pedro empregara antes em suas
respostas, como se baixasse o nível da exigência para a atual capacidade do
velho pescador... Por isso ele chora... Deus sabe muito bem de nossas fraquezas
e incapacidades. Nunca nos pedirá algo além de nossas forças. O Senhor aceita o
pouco que lhe podemos dar no momento...
Entretanto, se os cristãos de Roma,
anos mais tarde, contemplarem o mesmo Simão Pedro crucificado, exatamente como
seu Mestre se entregara no Calvário, terão compreendido que, enfim, o velho
pescador crescera no amor. E poderia, agora, responder: “Sim, Senhor, tu sabes
que eu te amo de amor!”
Orai sem
cessar: “A benevolência do Senhor é para toda a vida!” (Sl 30,6)
Texto de
Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

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