quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

PALAVRA DE VIDA

 As entranhas de misericórdia... (Lc 1,67-79)
           Este Evangelho nos reapresenta o conhecido “Cântico de Zacarias”, o pai de João Batista que, ao recuperar a voz, experimenta uma explosão de júbilo pelo nascimento do filho em plena velhice dos pais.

            Entre outros motivos de louvor a Deus, Zacarias recorda a salvação e o perdão dos pecados, atribuindo tudo isso às “entranhas de misericórdia” do Senhor Yahweh.
            É interessante observar a hesitação dos tradutores em optar por uma tradução mais exata dessa expressão. Alguns traduzem por “coração misericordioso”; outros, por “ternura e misericórdia”; outros, ainda, por “bondade profunda” ou “eterna misericórdia”.
            Para ser bem fiel ao texto lucano, bastava seguir a trilha deixada por São Jerônimo, na Vulgata, quando traduziu fielmente “per víscera misericordiae Dei nostri” [pelas vísceras de misericórdia de nosso Deus]. No texto grego original, a expressão de São Lucas é “splágchna éleous” – literalmente, “entranhas de misericórdia”.
            O termo grego que se traduz por “entranhas” corresponde ao hebraico “rahamim”, tantas vezes presente no Antigo Testamento, designando as vísceras abdominais, em especial o útero materno (tanto que André Chouraqui traduziu por “matrices” – a matriz materna).
            Dentro do horizonte tão comum ao AT, onde o Altíssimo sofre um tratamento antropomórfico, recebendo olhos (que tudo veem), mãos e braços (que se levantam contra os inimigos de Israel), ouvidos (sempre atentos ao clamor de seu povo) etc., a expressão “rahamim” chega ao notável extremo de apresentar o Senhor Deus com traços femininos, em sua terna “maternidade” pelos homens.
            É uma pena que alguém ainda consiga ler o Novo Testamento com olhos de combatente ou sentimentos de juiz, quando por suas páginas escorre permanentemente o azeite [élaion] da misericórdia divina, que relativiza os pecados, oferece o perdão e se alegra sobretudo com a centésima ovelha recuperada.
            Zacarias, porém, percebeu esta linha dominante nos eventos que o envolviam. O cumprimento das promessas da Primeira Aliança demonstrava o amor de Deus pela humanidade. Desde então, religião é sinônimo de amor...
Orai sem cessar: “Minhas entranhas estremeceram de amor...” (Ct 5,4)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

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