As entranhas de misericórdia... (Lc 1,67-79)
Este Evangelho nos reapresenta o
conhecido “Cântico de Zacarias”, o pai de João Batista que, ao recuperar a voz,
experimenta uma explosão de júbilo pelo nascimento do filho em plena velhice
dos pais.
Entre outros motivos de louvor a
Deus, Zacarias recorda a salvação e o perdão dos pecados, atribuindo tudo isso
às “entranhas de misericórdia” do Senhor Yahweh.
É interessante observar a hesitação
dos tradutores em optar por uma tradução mais exata dessa expressão. Alguns
traduzem por “coração misericordioso”; outros, por “ternura e misericórdia”;
outros, ainda, por “bondade profunda” ou “eterna misericórdia”.
Para ser bem fiel ao texto lucano,
bastava seguir a trilha deixada por São Jerônimo, na Vulgata, quando traduziu fielmente
“per víscera misericordiae Dei nostri” [pelas vísceras de misericórdia
de nosso Deus]. No texto grego original, a expressão de São Lucas é “splágchna
éleous” – literalmente, “entranhas de misericórdia”.
O termo grego que se traduz por
“entranhas” corresponde ao hebraico “rahamim”, tantas vezes presente no
Antigo Testamento, designando as vísceras abdominais, em especial o útero
materno (tanto que André Chouraqui traduziu por “matrices” – a matriz materna).
Dentro do horizonte tão comum ao AT,
onde o Altíssimo sofre um tratamento antropomórfico, recebendo olhos (que tudo
veem), mãos e braços (que se levantam contra os inimigos de Israel), ouvidos
(sempre atentos ao clamor de seu povo) etc., a expressão “rahamim” chega
ao notável extremo de apresentar o Senhor Deus com traços femininos, em sua
terna “maternidade” pelos homens.
É uma pena que alguém ainda consiga
ler o Novo Testamento com olhos de combatente ou sentimentos de juiz, quando
por suas páginas escorre permanentemente o azeite [élaion] da
misericórdia divina, que relativiza os pecados, oferece o perdão e se alegra
sobretudo com a centésima ovelha recuperada.
Zacarias, porém, percebeu esta linha
dominante nos eventos que o envolviam. O cumprimento das promessas da Primeira
Aliança demonstrava o amor de Deus pela humanidade. Desde então, religião é
sinônimo de amor...
Orai sem
cessar: “Minhas entranhas estremeceram de
amor...” (Ct 5,4)
Texto de
Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

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