Ovelhas sem pastor... (Mc 6,30-34)
Este Evangelho realça mais uma vez o
sentimento de Jesus diante das multidões que acorriam à sua procura, o mesmo
sentimento ainda mais destacado no Evangelho de São Lucas: a compaixão. Um movimento
da alma geralmente designado pelo verbo grego [splagchnizomai] que conota uma reação visceral, hoje diríamos
“psicossomática”.
O Antigo Testamento já fazia
referência ao abandono do povo por seus dirigentes, tanto políticos quanto
espirituais, como na passagem de Jeremias 10,21, que denuncia “pastores que
deixaram de procurar o Senhor e por isso são incapazes de governar”, com a
consequente dispersão do rebanho.
O profeta Isaías 40,11 traz a
promessa do Messias que vem “qual pastor que cuida com carinho do rebanho, nos
braços apanha os cordeirinhos, para levá-los ao colo”.
É exatamente assim que a Jesus
aparece, no Evangelho – diz Hans Urs von Balthasar – a multidão que se reúne à
sua volta. “Nele, as pessoas sentem instintivamente o bom pastor enviado por
Deus, que não quer exercer seu poder sobre elas, mas as reúne e cuida delas por
si mesmas. Os poderosos já as dominaram o suficiente, assírios, babilônios,
persas, gregos, romanos, para os quais o povo era somente certa massa ignorante
“nascida inteiramente no pecado” (cf. Jo 9,34).”
Este Evangelho mostra-nos Jesus
dividido entre a necessidade de repouso e as exigências da multidão, que não
lhe permite sequer o tempo para as refeições (cf. Mc 6,31b). “Ele acabará por
oferecer a si mesmo em alimento para esses famintos. Ele não está ali para
descansar, mas para deixar-se usar até o fim. ‘Eu dou a minha vida pelas minhas
ovelhas’. (Jo 10,15)”
É assim que Jesus deixa de lado o
descanso e a alimentação para concentrar-se no ensinamento da multidão.
Fazem-lhe companhia os discípulos, sem que se registre a reação deles e suas
disposições íntimas. Afinal, o Mestre é também o modelo de vida do discípulo,
um modelo a ser imitado sem reservas pessoais.
Como o próprio Jesus iria ensinar,
basta ao discípulo ser como o Mestre. Por isso mesmo, em sua atuação pastoral e
no anúncio do Evangelho – como se lê nos Atos dos Apóstolos - esperam por eles
os mesmos cansaços e a mesmo destino de seu Mestre (cf. Mt 10,25).
Orai sem
cessar: “O Senhor
é meu pastor, nada me falta!” (Sl
23,1)
Texto de Antônio
Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

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