Sufocam a Palavra... (Mt 13,18-23)
Neste Evangelho, temos algo
especial: o próprio Jesus “interpreta” uma de suas parábolas, cujo sentido
mostrava-se hermético a seus ouvintes. E fica bem claro que a “Palavra do
Reino” sempre encontrará sérios obstáculos para ser acolhida e dar fruto: a oposição
do maligno, nossas próprias futilidades, nossa inconstância, as preocupações
mundanas...
Como observa H. Roux, quando
recebemos a semente da Palavra, pode ser que nós não a compreendamos, ou a
entendamos mal. “O Reino dos céus é proclamado no seio de um mundo hostil. Mas
Jesus não nos quis dar uma lista exaustiva das diversas reações do mundo. Ele
apenas atrai a atenção sobre o fato de que a Palavra, ao ser pronunciada, no
mais das vezes o é com perda total.”
“Mas também ocorre – e isto é um milagre! – que a semente encontre
um bom terreno, ao qual era destinada; acontece, mesmo neste mundo hostil, que
a Palavra seja ouvida, compreendida, e dê frutos.” Contudo, o mais frequente é
a sua rejeição. “Ela veio aos seus – dirá o apóstolo João – e os seus não a
receberam”. (Jo 1,10)
“Quando Jesus aparece com a Palavra
do Reino - prossegue Hébert Roux -, quando deste modo vem ao mundo o Reino
contido em potencial nessa Palavra, oculto e secreto como a planta que existe
na promessa desse grão, o julgamento e a graça de Deus se manifestam ao mesmo
tempo: o Evangelho provoca a contradição em um mundo onde Satã reina sobre os
corações e os espíritos, e é exposto à superficialidade dos entusiasmos fáceis;
finalmente, é rejeitado por aqueles mesmos que, de início, pareciam querer tornar-se
os seus campeões.”
A conclusão é que a acolhida da
Palavra do Reino e a consequente frutificação em nós devem ser vistas como
autêntico milagre da graça, mais do que sinal de heroísmo de nossa parte. Por
qualquer pequeno motivo (ou pretexto), estamos prontos a sufocar a semente
recebida. Envolvidos por um mundo pagão (hoje como antes!), podemos optar pelo
dinheiro, pela amizade dos poderosos, pelos aplausos da maioria, pelo brilho do
sucesso e tantas outras “preocupações” do mundo.
A palavra “preocupação” pode ser
lida no sentido de algo que se antepõe (ver o prefixo “pré”) à Palavra do
Reino. Algo que nos “ocupa antes” e, por isso, sufoca a Palavra. Sem abrir mão,
sem abrir espaço, não vamos acolhê-la...
Orai sem
cessar: “Senhor,
conservo no coração tuas promessas!”
(Sl 119,11)
Texto de
Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.
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