O
Deus dos vivos... (Mc
12,18-27)
Para o mundo pagão, tudo acaba com a
morte. Nada sobrevive além do tempo, além da história. Nem mesmo faz sentido um
funeral religioso, a celebração das exéquias, pois já não sobra nada da pessoa
que se foi.
Não deixa de ser estranho que
mesmo no povo de Israel, herdeiro das promessas de Yahweh, existisse um grupo como o dos saduceus, que não acreditavam
na ressurreição, ainda que o sacerdócio judaico estivesse sob o controle deles.
Mas explica que fossem tão aferrados ao poder temporal e dessem tanta
importância ao dinheiro. Só a fé na ressureição permite uma vida livre e leve,
desapegada dos bens materiais, exatamente aqueles que não nos acompanham na
ressurreição.
E são eles mesmos, os saduceus, que
apresentam a Jesus a fábula da mulher que tivera sucessivamente sete maridos
(todos eles irmãos!) e, ironicamente, querem saber do Mestre com qual dos sete
finados ela iria viver como esposa após a morte, caso existisse mesmo a tal
ressurreição...
E o Mestre a responder: “Estais
errados!” Talvez a única passagem dos Evangelhos em que Jesus faz de modo tão
incisivo uma acusação desta ordem: não crer na ressurreição é um erro grave. E
logo passa a mostrar que casamento e procriação são realidades temporais,
históricas, quando é preciso gerar filhos e descendentes, realidades já sem
sentido do outro lado da morte, quando seremos “como anjos no céu” (Mc 12,25).
Mas o principal vem a seguir: Deus
não é Deus dos mortos! O Deus de Abraão, Isaac e Jacó (três gerações
subsequentes!) é o mesmo Deus. A amizade entre Deus e Abraão não se interrompe
quando este morre. O Deus em quem Jacó aposta sua vida não é um Deus diferente
do Deus de seu pai. Estamos todos em relação permanente com o Senhor, antes da
morte e depois da morte, essa impostora que não tem poder de interromper nossa
relação com o Criador e Pai.
Em um sermão para o Sábado Santo,
Agostinho de Hipona ensina: “Quando Deus diz: ‘Eu sou aquele que sou’, ele não
acrescenta de imediato: ‘Eis o meu nome para a eternidade’. De fato, ninguém
duvida disso, pois aquele que é, é porque é eterno. Mas quando ele diz: ‘Eu sou
o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó’, ele acrescenta: ‘Eis o meu
nome para a eternidade’. (Ex 3,15) É como se ele dissesse: ‘Por que temes a
morte do homem? Por que tu haverias de temer já não ser mais depois da morte?
Eis o meu nome para a eternidade. E este nome: Deus de Abraão, Deus de Isaac,
Deus de Jacó não poderia ser eterno se Abraão, Isaac e Jacó não vivessem
eternamente”.
Orai sem cessar: “A multidão dos que dormem acordará...” (Dn 12,2)
Texto
de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.
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