quinta-feira, 7 de junho de 2018

PALAVRA DE VIDA


Escuta, Israel! (Mc 12,28b-34)
Imagem relacionada       O escriba – o homem da Lei – quer saber do aprendiz de carpinteiro qual é o maior dos mandamentos da Lei de Deus. E o aluno de José de Nazaré vai ao passado do povo escolhido para repescar as palavras de Yahweh a Moisés: “Escuta, Israel!” (Dt 6,4). Exatamente aquele “Shemmá” que se transformaria na oração diária de todo judeu praticante.

            O grande mandamento com duas faces, como uma moeda divina, fala de amar a Deus e amar ao próximo. Há quem se concentre na primeira Face; há quem se dedique à segunda face. Madre Teresa de Calcutá diria que as duas se fundem em uma única Face: Cristo se disfarça no outro que passa por meu caminho. Mas nem sempre se percebe que a condição para acolher o mandamento está na primeira palavra do Senhor: “Escuta!”
            Nem podia ser diferente, pois em toda a Primeira Aliança o itinerário de Israel era feito às cegas, quando Deus ainda não tinha uma Face humana e permanecia invisível, transcendente, impalpável, diante da esperança insatisfeita do salmista: “Senhor, por que escondes a tua Face?”  (Sl 88,15) E ainda: “Mostrai-nos vossa Face e seremos salvos!” (Sl 80,20)
            A marca do fiel é a escuta. Um ouvido atento, conectado a uma palavra que vem pela audição. Em audiência de 15/04/1970, o Papa Paulo VI dizia: “Hoje fazemos esta pergunta: como se chega à fé ? Não apenas a um sentimento religioso, a um vago conhecimento de Deus e do Evangelho, mas a uma adesão da mente e do coração à Palavra divina, à verdade revelada por Cristo e ensinada pela Igreja. É uma pergunta fácil e igualmente importante. Foi São Paulo quem primeiro a formulou, dando-lhe imediatamente uma resposta. Na Carta que escreveu aos romanos, ele interroga: ‘Como hão de acreditar n’Aquele que não ouviram? E como ouvirão se ninguém lhes prega? E como pregarão, se não forem enviados?’ (Rm 10,14-15.) E acrescenta: fides ex auditu — a fé depende da pregação, e a pregação, da Palavra de Cristo”.
            Fides ex auditu. A fé vem pela audição. Sem um ouvido “ligado”, on line, o dom da fé não se manifestará. Não foi sem motivo que, no cenário da Transfiguração, a voz do Pai tenha acrescentado à identificação do Jordão – “Este é meu Filho bem-amado” – um novo imperativo: “Escutai-o!” Pouco vale saber que Jesus é o Filho enviado pelo Pai se não estamos dispostos a ouvi-lo. Fica sem efeitos a transfiguração de Jesus se, ao mesmo, tempo, não abrimos os ouvidos para a transfiguração que o Pai quer realizar em nossas vidas...
            Os poderosos não conhecem o próximo como objeto de amor. Veem a mão de obra, os consumidores, o público com sede de entretenimento. Os mais ricos se incomodam com a presença dos pobres. Os intelectuais zombam da ignorância dos analfabetos. E não podia ser diferente, pois eles não “escutam” a voz de Deus. Antes de amar a Deus, antes de amar o próximo, é preciso ouvir...
Orai sem cessar: “Escutarei o que diz o Senhor...” (Sl 85,9)
Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

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