Escuta,
Israel! (Mc
12,28b-34)
O escriba – o homem da Lei – quer
saber do aprendiz de carpinteiro qual é o maior dos mandamentos da Lei de Deus.
E o aluno de José de Nazaré vai ao passado do povo escolhido para repescar as
palavras de Yahweh a Moisés: “Escuta,
Israel!” (Dt 6,4). Exatamente aquele “Shemmá”
que se transformaria na oração diária de todo judeu praticante.
O grande mandamento com duas faces,
como uma moeda divina, fala de amar a Deus e amar ao próximo. Há quem se
concentre na primeira Face; há quem se dedique à segunda face. Madre Teresa de
Calcutá diria que as duas se fundem em uma única Face: Cristo se disfarça no
outro que passa por meu caminho. Mas nem sempre se percebe que a condição para
acolher o mandamento está na primeira palavra do Senhor: “Escuta!”
Nem podia ser diferente, pois em
toda a Primeira Aliança o itinerário de Israel era feito às cegas, quando Deus
ainda não tinha uma Face humana e permanecia invisível, transcendente,
impalpável, diante da esperança insatisfeita do salmista: “Senhor, por que
escondes a tua Face?” (Sl 88,15) E
ainda: “Mostrai-nos vossa Face e seremos salvos!” (Sl 80,20)
A marca do fiel é a escuta. Um
ouvido atento, conectado a uma palavra que vem pela audição. Em audiência de 15/04/1970,
o Papa Paulo VI dizia: “Hoje fazemos esta pergunta: como se chega à fé ? Não
apenas a um sentimento religioso, a um vago conhecimento de Deus e do
Evangelho, mas a uma adesão da mente e do coração à Palavra divina, à verdade
revelada por Cristo e ensinada pela Igreja. É uma pergunta fácil e igualmente
importante. Foi São Paulo quem primeiro a formulou, dando-lhe imediatamente uma
resposta. Na Carta que escreveu aos romanos, ele interroga: ‘Como hão de
acreditar n’Aquele que não ouviram? E como ouvirão se ninguém lhes prega? E
como pregarão, se não forem enviados?’ (Rm 10,14-15.) E acrescenta: fides ex auditu — a fé depende da
pregação, e a pregação, da Palavra de Cristo”.
Fides
ex auditu. A fé vem pela audição. Sem um ouvido “ligado”, on line, o dom da fé não se manifestará.
Não foi sem motivo que, no cenário da Transfiguração, a voz do Pai tenha
acrescentado à identificação do Jordão – “Este é meu Filho bem-amado” – um novo
imperativo: “Escutai-o!” Pouco vale saber que Jesus é o Filho enviado pelo Pai
se não estamos dispostos a ouvi-lo. Fica sem efeitos a transfiguração de Jesus
se, ao mesmo, tempo, não abrimos os ouvidos para a transfiguração que o Pai
quer realizar em nossas vidas...
Os poderosos não conhecem o próximo
como objeto de amor. Veem a mão de obra, os consumidores, o público com sede de
entretenimento. Os mais ricos se incomodam com a presença dos pobres. Os
intelectuais zombam da ignorância dos analfabetos. E não podia ser diferente,
pois eles não “escutam” a voz de Deus. Antes de amar a Deus, antes de amar o
próximo, é preciso ouvir...
Orai sem cessar: “Escutarei o que diz o Senhor...” (Sl 85,9)
Texto
de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.
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