Abriu-lhe
o lado...
(Jo
19,31-37)
O súbito golpe de lança do centurião
romano rasga o peito de Jesus, já morto na cruz do Calvário. O agudo ferro da
lança passa entre as costelas, transpassa a pleura e o pulmão, fere o coração.
Imediatamente, o resto de sangue e de linfa ali depositados escorre
visivelmente: sangue e água.
A tradição da Igreja, registrada em
textos e hinos litúrgicos, viu nas duas substâncias os sinais sacramentais da
Eucaristia e do Batismo, entendidos como um dom pascal que Jesus Cristo
confiava à Igreja.
Não é por acaso que a Liturgia
escolhe este Evangelho para a festa do Sagrado Coração de Jesus. Ao celebrar o
coração do Crucificado, nós recordamos ao mundo o mistério da Encarnação do
Verbo, que assumiu plenamente nossa natureza: um corpo com músculos, ossos e
órgãos, capaz de sofrer e sangrar, mas também a sensibilidade, os sentimentos,
as angústias próprias dos humanos.
A preciosa devoção ao Sagrado
Coração serve para nós como vacina contra um tipo de cristianismo aéreo,
abstrato, angelical, predisposto a ignorar o realismo da natureza humana, tão
incômoda aos gnósticos quanto as chagas do Ressuscitado... É também uma imagem
palpável a recordar-nos permanentemente a face histórica da Encarnação do
Verbo.
Em sua Encíclica “Haurietis Aquas” [15/05/1956], sob o
culto do Sagrado Coração de Jesus, o Papa Pio XII escreveu:
“Nada proíbe que adoremos o coração
sacratíssimo de Jesus Cristo, enquanto é participante, símbolo natural e
sumamente expressivo daquele amor inexaurível em que ainda hoje o divino
Redentor arde para com os homens. Mesmo quando já não está submetido às
perturbações desta vida mortal, ainda então ele vive, palpita, e está unido de
modo indissolúvel com a Pessoa do Verbo divino, e, nela e por ela, com a sua
divina vontade.”
Para Pio XII, o coração do Salvador
“reflete a imagem da divina pessoa do Verbo divino”. Não apenas um símbolo, mas
“como que um compêndio de todo o mistério da nossa redenção”.
Não é preciso ser teólogo para
compreender este profundo mistério. O povo simples se alegra e se comove diante
desta evidência: nosso Deus se fez humano como nós. Nosso Deus tem um coração.
Seu amor por nós não é algo aéreo, abstrato, mas é um amor encarnado, uma
torrente que corre de seu lado aberto.
Não admira que este tema – o coração
de Jesus – tenha comovido tantos místicos e inspirado tantos artistas. Deus tem
um coração...
Orai sem cessar: “Naquele dia jorrará uma fonte
para a casa de Deus.” (Zc 13,1)
Texto
de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.
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