Não
sabíeis? (Lc
2,41-51)
Foi com esta pergunta que o
adolescente Jesus respondeu à interrogação de sua Mãe: “Por que agiste assim
conosco?” Ele acabara de celebrar o seu “bar
mitzváh”, o rito de maioridade do jovem judeu. Na Jerusalém inflada pela
turba de peregrinos em plena Páscoa, que podiam chegar a 500.000, o menino (ou
o jovem adulto?) perdeu-se dos pais por três longos dias, templo de angústia e
aflição para Maria e José. Foram encontrá-lo, por fim, entre os doutores do
Templo, com perguntas e respostas que deixavam a todos de queixo caído.
“Não sabíeis – interroga Jesus – que
devo estar naquilo que é de meu Pai?” Não posso deixar de perceber uma leve
reprimenda nas palavras do filho. Como se sugerisse: “Depois de tanto tempo,
ainda não percebestes?”
Esta cena que mescla a alegria do
reencontro e a agonia da perda, um episódio pungente de humanidade, deixa bem
visível o clima de família que se experimentava em Nazaré. José, Maria e Jesus
vivendo as coisas mais simples e mais chãs da realidade familiar, como gente
comum, sem que nada os distinguisse dos vizinhos e dos membros de clã.
Lucas deixa claro que os pais não
entenderam o comportamento nem as palavras do filho. A “descoberta” do
verdadeiro Jesus não se faz de repente, mas exige um longo itinerário de
aproximação e revelação.
“Não sabíeis?” E deviam saber? -
pergunto eu... Ora, não é fácil para os pais perceber a verdadeira vocação dos
filhos. Nossa tendência natural é a de enquadrar o filho em possibilidades
previsíveis, “engavetando-o” no óbvio, no provável, em nossas preferências e
comodidades.
Ora, todo filho é uma surpresa. Os
filhos nos são dados para virar nossa vida de cabeça para baixo, impelindo-nos
a novas visões, novas descobertas, novo potencial humano. Quanto sofrimento os
pais experimentam (e provocam) quando tentam forçar os filhos para um caminho
seguro, estável, “garantido”, com medo da novidade e dos imprevistos!
Hoje, a Igreja celebra o Coração de
Maria. Coração materno, com as pulsações que Jesus acompanhara desde a vida
pré-natal. E não terá sido fácil para ele preparar e realizar as rupturas que
sua missão lhe impunha. O episódio do Evangelho de hoje é apenas o primeiro
quadro de uma Via-Sacra que incluiria a morte de José, a partida de Jesus para
a vida pública e, no ponto final e mais alto, a cruz do Calvário, onde a Mãe
fez a derradeira entrega de seu Filho.
E nós? Já sabemos? Na oração e no
silêncio (não há outro meio!), Deus fala ao nosso coração para revelar, passo a
passo, a vocação e a missão que reservou para nós. Como pais, como operários do
Reino, como pecadores chamados à santidade, permaneceremos na obscuridade se a
luz divina não mostrar o caminho...
Orai sem cessar: “Mostra-me, Senhor, o teu
caminho!” (Sl 27,11)
Texto
de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

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